6 de out. de 2006

Polêmica

A polêmica move a humanidade.
O que seria do mundo sem perguntas irrespondíveis? A freqüência de frases como “sim, claro” e “concordo plenamente” se multiplicariam pelo número de pessoas vivas, uma vez que, todas teriam exatamente as mesmas idéias, sem nada acrescentar umas às outras. Graças a Deus, a polêmica não pode ser eliminada: faz parte da essência humana. Nada mais prazeroso do que uma discussão, não é mesmo? Se for numa mesa de boteco então, melhor ainda. É impressionante como indivíduos semi-bêbados (ou semi-lúcidos) opinam sobre os mais variados temas; alguns chegam até a defender, com todo fervor, as teses elaboradas entre uma petiscada e a terceira rodada de cerveja. E é assim que nascem as mais absurdas (e interessantes) argumentações. Foi no boteco onde ouvi a mais brilhante interpretação sobre uma causa hiper polêmica: o aborto.
Não sei bem como a conversa chegou a tal tema, mas levando em conta os participantes do dialogo – Fonrims e eu – tudo pode acontecer. E geralmente acontece:
FONRIMS: Oh, mestre Kika! Ainda persiste na idéia de não gerar descendentes?
Eu: É claro, Fonrims. Certas coisas nunca mudam, esta é uma delas.
FONRIMS: Haverá alguma justificativa para tal radicalismo?
Eu: Crianças ferem todos os meus princípios: falam errado, gastam mais dinheiro do que deveriam, acordam cedo e, por Deus, enchem muito o saco! Não suportaria conviver com uma por mais de 20 minutos.
FONRIMS: Uma visão egoísta, não achas?
Eu: Sem dúvidas. Sou uma egoísta assumida. E acaso isso não justifica a minha escolha?
FONRIMS: É... De certa forma tens razão.
Eu: Meu egoísmo é tanto que eu acho que depois de mim não precisaria nascer mais ninguém. Eu já nasci mesmo, que importa os demais espermatozóides do mundo?
FONRIMS: És, portanto, a favor da contracepção permanente?
Eu: Contracepção permanente? Sei lá o que é isso. Seja o que for, se impede a proliferação de criaturas chatas e birrentas, eu apoio.
FONRIMS: Então é a favor do aborto?
Eu: Hum... Essa é uma questão delicada. Prefiro não opinar.
FONRIMS: Prefere não opinar? Logo tu, que sempre tem uma resposta para tudo!
Eu: É que na verdade, todo mundo fala tanta coisa sobre o aborto que a gente fica sem saber qual é o lado certo. É assim com todos os temas polêmicos, já percebeu?
FONRIMS: Sim, de fato.
Eu: O engraçado é que nunca perguntam para quem realmente saberia esclarecer essas questões.
FONRIMS: Como assim?
Eu: Por exemplo, no caso do aborto, seria adequado perguntar ao feto o que ele acha sobre o assunto, não é? A final de contas, a decisão irá afetar a ele, principalmente.
FONRIMS: Faz sentido, teoricamente. Mas como conversar com um feto?
Eu: Aí já não é comigo. Vai conversar com os loucos das Exatas, que desenvolvem máquinas pra tudo. Outro dia, vi um robô que age exatamente como um humano, até leva as crianças pra escola! Frente a isso, conversar com feto deve ser moleza.
FONRIMS: É... Pode ser tecnologicamente possível, mas será que um ser de 3,7465 mm consegue ter uma opinião formada a respeito do próprio futuro?
Eu: Teríamos que informa-lo a respeito da polêmica. E assim, decidiria.
FONRIMS: Pra ser sincero, eu acho que isso não tem coerência nenhuma.
Eu: Ora, Fonrims, abstraia! O que não tem coerência é a gente decidir por nós mesmos o que é bom ou mau. Pior ainda é acreditar que o tal feto gostaria de vir ao mundo.
FONRIMS: Você acha que não?
Eu: Obviamente que não. Veja o mundo como está! Se eu fosse um feto, e pudesse conversar com alguém, gostaria de saber como é o mundo exterior. Assim, definiria se vale a pena sofrer todo aquele estresse de parto, tapão nas costas, batizado...
FONRIMS: E você acha que alguém preferiria ser abortado a vir ao mundo naturalmente?
Eu: Com certeza! Por mais cruel que pareça, eu acho que o problema maior não é abortar um ser que “poderia” ser uma boa pessoa, mas sim deixar “mais um” nascer e aumentar a população de inúteis sociais.
FONRIMS: Inúteis sociais? Seriam esses os desempregados, mendigos e pobres em geral?
Eu: Não necessariamente. Não falo pela lógica política nem econômica, falo pelo raciocínio humanista, simplesmente. Os inúteis sociais são todos aqueles que não tem vontade nenhuma de ser alguém. Sabe aquela pessoa que parece que veio ao mundo por obrigação?
FONRIMS: Sim.
Eu: Então. Essas são aquelas que responderiam a favor do aborto, se pudessem opinar quando ainda eram feto.
FONRIMS: Será possível? A morte é melhor que a vida?
Eu: E por que não? Não me diga que você parte da inocência de que a vida é bela? Eu, com 17 anos nas costas, já me dei conta da crueldade da existência fora do útero! Escola, vestibular, desastres afetivos, encheção de saco, horários, dietas sinistras... E veja só que desgraça: Acabou o amendoim!
FONRIMS: Tem razão, a vida é muito cruel!
Eu: Viu só... A vida é para os fortes.
FONRIMS: Agora você me deixou em dúvida... Será que eu deveria ter nascido?
Eu: Você não nasceu, Fonrims. Você é imaginário, lembra?FONRIMS: Ah, é...

posted by: Kika Dalossi, mais do que um expermatozóide: um óvulo fecundado! /o/

2 comentários:

Anônimo disse...

Debates existencialistas com Fonrims são um máximo! n_n

E sou preguiçosa e não vou abrir meu blog por enquanto, blé ¬¬

Anônimo disse...

mon dieu =P
eu não sei porque, mas paira em minha mente a nítida sensação de que este colóquio não passa de farsa bloguística! XD