Blimb sobrevoava agora um vilarejo. Na verdade, era a região Metropolitana da cidade da Fantástica Fábrica. Lá de cima, podia ver muita área verde, com crianças empinando pipas e cachorros correndo livremente. Era uma cena muito linda. As casinhas, com suas cores enfeitavam o gramado. “Parecem de miniatura” , pensou Blimb
E enquanto voava lá em cima, admirando todas aquelas coisinhas e pessoinhas felizes, esqueceu de um pequeno detalhe – mas fundamental – olhar para frente!!
Com esse descuido, Blimb nem se deu conta como aconteceu tudo tão depressa. O fato é que momentos depois estava ele dentro de uma sala, onde todos o olhavam curiosamente. Blimb havia arregaçado a janela da escola da região.
Sentado entre os estilhaços da imensa janela, Blimb se sentiu pequenino, observado pela professora e os alunos da sexta serie, que ali estavam tendo uma palestra sobre “sexo e prevenção”.
O palestrante estava meio nervoso, era visível. O pobre rapaz estava cursando a faculdade de química e havia aceitado fazer a palestra só por que a diretora era amiga da sua mãe, faziam crochê juntas. Era a primeira vez que falava “dessas coisas” com crianças de 11 anos. E o crachá com seu nome “Sidy Ney” não o deixavam mais a vontade, pelo contrário, ele havia notado comentários inconvenientes a respeito disso. Estava se esforçando para ser claro nas explicações e agir com naturalidade ao ensinar como colocar uma camisinha. Mas era realmente constrangedor fazer isso com uma banana, diante de uma sala repleta de pirralhos! E agora aquele ser esquisito havia entrado de um jeito nada convencional e derrubado todos os seus potinhos com pílulas e coisas do gênero. O que mais faltava acontecer? Sidy se perguntava, quando o enorme dragão se levantou. Parecia bastante envergonhado também, o que fez Sidy relaxar um pouco. “Há males que vêm para o bem”. Lembrou ele.
E de fato, com a intromissão de Blimb na sala, as crianças se controlaram um pouco. Pararam de rir uma para as outras e se fixaram em Blimb.
Tanto quanto pra variar, Blimb se sentiu constrangido. Mas ao contrário do episódio com os Fat Dwarffs, agora ele sentiu que naquela sala ninguém estava disposto a sacanear. Olhavam para ele com uma curiosidade que era quase assustadora.
Olhou em volta e só então percebeu que se tratava de uma escola. Não que ele já estivesse estado em uma, mas entre os estilhaços da janela, estava uma grande placa, escrita “Escola Estadual de Campo Largo, Professor Bonifácio Estácio”. Achou interessante toda aquela coisa... Havia mapas e o alfabeto em cima da lousa. Para os ensinos geográficos, o globo terrestre estava na mesa da professora. Também haviam alguns trabalhos presos nas paredes. Mas Blimb notou que embora o local aspirasse cultura e conhecimento, aquelas crianças pareciam incrivelmente ignorantes. Quer dizer, a maioria usava a camisa por dentro da calça, que por sua vez quase passava do peito. Para completar o visual patético, alguns tinham o nariz escorrendo e as meninas usavam 52 000 tic tacs no cabelo e aquelas pulseirinhas bregas de silicone, até o cotovelo.
Blimb ficou a se perguntar como sairia dali, porque aqueles olhares sobre ele estavam começando a deixa-lo nervoso.
E aquele cara lá na frente... qualé a dele, hein? Cheio de coisas esquisitas na mão, com uma cara de perdido. Mas estranho que isso tudo era a professora. Embora a sala estivesse cheia de alunos, ela não parecia interessada em nenhum deles. Estava sentada na sua mesa, mascando um chiclete e lendo uma revista “Bons Fluidos” quando Blimb adentrou pela janela. Depois do acidente, as mudanças consistiram em uma redução na velocidade de mascar o chiclete e os olhos, que saíram da revista e pararam sob Blimb. Meio sem querer, a professora murmurou para si mesma “Só me falta essa... Cada um que me aparece...”
Mas como era de praxe, todos esperavam que ela, a professora dona Marieta, resolvesse a situação.
Como nada se fez, nada se resolveu. É a ordem natural das coisas. Porém, dona Marieta, jovem professora da sexta séria de uma escolinha pública, não ia perder a oportunidade que a vida estava lhe dando, naquele exato momento. Já havia reparado que o também jovem palestrante não se adaptava na sala de aula, assim como ela. E, além disso, tinham muitos outros pontos em comum, como por exemplo, dificuldades com pílulas e camisinhas... Após refletir alguns momentos, elaborou um engenhoso plano para vazar da sala, junto com Sidy Ney.
Levantou-se de sua mesa, e usando toda a sua desenvoltura teatral disse:
- Isso é um absurdo! Como pode invadir assim a minha sala de aula, no meio da brilhante palestra sobre... Bananas e suas embalagens exóticas. Isso não deve ser tolerado, comunicarei o fato à diretoria, imediatamente!
E assim saiu da sala. Antes, é claro, deu uma piscadela para Sidy Ney, que ficou meio confuso, mas achou melhor acatar a sugestão de sair dali, mesmo que fosse para os braços daquela professora esquisita. Mal teve tempo e coordenação motora para pegar suas coisas, tanto que muitos dos seus potinhos e camisinhas ficaram por ali mesmo, entregues a própria sorte com 25 crianças e um dragão medieval.
É claro que os alunos não se importaram em ficar a sós com Blimb, muito pelo contrário, sentiram-se completamente a vontade para explorar aquele estranho ser.
-Acho que devemos joga-lo de novo lá fora... – disse Maria Terezita, a única assustada com Blimb. Mais tarde, Blimb descobriria que ela tinha medo de tudo, porque nunca tinha tentado nada e também porque sofria de asma crônica.
-Claro que não! Não seja tonta, Terezita. A gente tem que primeiro ver como é que ele funciona – essa frase provocou calafrios em Blimb, que arregalou os olhos e fitou cada uma das crianças. Elas pareciam muito curiosas, e algumas já até se aproximavam para ver melhor e mexer nas escamas de Blimb, enquanto comentavam: “Olha! Que nariz” “Olha!! Olha as patas!” “cara, é praticamente o lobo-mau da chapeuzinho vermelho!”
-Ei! Pare com isso! O que você pensa que está fazendo?
-Olha gente! Ele fala!
-É claro que eu falo. O que você esperava? Que eu latisse?
Aos poucos as crianças foram ganhando intimidade com Blimb. E ele também se sentiu à vontade com elas. Tanto que no final da aula, estavam todos ao seu redor, para ouvir as aventuras do dragão.
O sinal tocou e aos poucos as crianças pegaram suas mochilas e lancheirinhas dos teletubies, e foram para casa. Mas 4 ficaram ali, olhando para Blimb. Eram dois meninos e duas meninas, uma delas Maria Terezita, com sua bomba asmática. A outra era Emanuele, visivelmente patricinha, pois usava maquiagem cremosa e todos os seus tic tacs e pulseiras eram rosa. A cada dois cm de corpo, havia um pom pom. Os meninos eram aparentemente normais, até que começaram a falar. Os dois eram visurados em biologia. João Pedro foi quem falou primeiro:
-Vamos leva-lo ao laboratório, para que possamos recolher amostras da epiderme.
-Concordo plenamente. – Paulo Adriano era ainda um iniciante, mas deixou Blimb bastante impressionado, com seus conhecimentos de Zoologia e Botânica.
No laboratório, houve um pequeno imprevisto.
Ao adentrarem no recinto, deram com uma cena no mínimo inusitada. Sidy Ney dava um amasso na professorinha, entre os tubos de ensaios e buretas. Quando entraram, fazendo todo aquele som de pacote Elma Chips sendo aberto e todo barulho característico de crianças. Dona Marieta tratou de levantar o coque sobre a cabeça e colocar a camisa dentro da saia novamente. E conseguiu, com grande desenvoltura, agir naturalmente. Em compensação, Sid Ney estava mais embaraçado do que nunca. E pra piorar um pouco mais a situação, tentou disfarçar:
-É... Bem... Crianças... Digo... Pré-adolescentes (risada forçada) eu estava aqui mostrando algumas coisas a respeito da palestra para a professora Marieta... Adoraria mostrar a vocês também, mas creio que é melhor esperar ate que completem seus 18 anos e...
Nisso Marieta já estava quase tendo um colapso. Conhecia bem seus alunos e sabia que aquela marca de batom no pescoço, o cabelo desajeitado e o zíper da calça aberto, condenariam o ato. Mas teve consciência de que Sid Ney era em demasia ingênuo, para perceber esses detalhes. Então tratou de ajuda-lo. Sem se importar em interromper o discurso do jovem palestrante, puxou-o para fora da sala, deixando as crianças e Blimb sozinhos, no laboratório.
João Pedro colocou um banquinho no centro da sala:
-Sente-se aqui – indicou o banco a Blimb.
Blimb, um tanto quanto constrangido, por estar sendo observado com tanta curiosidade, sentou-se.
-Muito bem, equipe. Vamos começar a estudar o objeto.
-Objeto??? Como assim, objeto? Fique sabendo que eu sou um legítimo dragão medieval e se estou aqui é porque...
-Shhhh! Silencio! Você deve permanecer calado e imóvel. Faça apenas o que lhe é dito.
Então joão Pedro foi buscar as pranchetas num armário do outro lado da sala. Emanuele aproximou-se, com seu jeitinho meigo e disse baixinho para Blimb:
-não se preocupe... o JP é assim mesmo. Se empolga um pouco sempre que pode. Nós não vamos fazer mal a você.
Isso tranqüilizou Blimb. Mas essa paz durou apenas alguns instantes, porque logo João Pedro voltou e distribuiu as pranchetas e as ordens:
-Paulo, você faz a classificação, de acordo com os princípios de Newton e Darwin. Eu vou tentar localizar a espécie no Atlas biológico. Terezita, recolha as amostras de pele...
-Mas eu sou alérgica! Eu acho...
-Ah... tudo bem... Emanuele, você fica com as amostras. Terezita, coloque uma máscara, luvas e roupa da NASA, precisamos de você no microscópio.
E assim foi por mais ou menos duas horas. Blimb foi cutucado, raspado, cheirado e até pintado, com o esmalte hiper-brilho de Emanuele. No fim, estava exausto e agradeceu aos céus quando João Pedro disse:
-Muito bem, equipe. Vamos dar um intervalo agora. Continuaremos ao término de Malhação.
-Aaaaaaaah!! É hoje!! É hoje!!! – exclamou Emanuele
-O que? O que aconteceu?!! – Blimb já imaginava coisas terríveis...
-É hoje que vamos descobrir se o Gui vai ficar com a Julia e sacar que a gravidez da Valéria é só fachada. E também vão desvendar o mistério do décimo quarto incêndio no Giga Byte... Quem será que foi dessa vez? A Drika, com seu cabelo roxo punk ou a santinha da Letícia, só pra chamar atenção do Rafa?
Blimb não entendeu nada, mas achou melhor não fazer mais perguntas. Até porque todos estavam saindo do laboratório e se encaminhando para a tv mais próxima, no grêmio da escola. O ultimo a sair foi João Pedro, que disse antes de fexar a porta:
-Você pode dar uma saída se quiser... só tome cuidado pra voltar a tempo, temos que terminar isso ainda hoje, porque amanhã eu tenho dentista. Ah... e não se confunda com as salas, são bem parecidas, mas esse é o único laboratorio, não erre.
E foi embora. Blimb então decidiu dar um role só pra ver qualé que era que tava pegando.
Andando pelos corredores da escola, Blimb refletia sobre a realidade daquela gente. Eram muito interessantes, sem dúvida. Tinham um modo de vida extremamente simples, e mesmo assim eram felizes a ponto de rirem do vento. Podiam comer chips o dia todo, todos os dias e ainda assim respiravam normalmente. Não precisavam de nada realmente importante, como objetivo de vida, oq importava era o final da novela, que já ia ao décimo segundo ano, com o vigésimo quinto elenco e o primeiro roteiro. E mesmo assim, conseguiam levantar de manhã para ir a escola, rir e brincar de adoleta no recreio.
Porem, notou também que haviam fatores fundamentais para que essa rotina funcionasse perfeitamente. Notou que todos estavam agrupados, e se sentiam seguros e felizes. Mas alguns estavam isolados, infelizes e pra piorar um pouco, avacalhados por tudo e todos. Eram esses os pobres “deslocados”, que não tinham amigos, nem dinheiro pra comprar chips, nem uma mochila do Barnei.
Blimb percebeu que estes ficavam pelos cantos dos corredores, olhando com medo para todos e fazendo o possível para se esconder. Um menino desses, foi emburrado por um grandão, que por sua vez, andava em grupo. Então todos se juntaram e fizeram uma rodinha ao redor do pequeno nerd. Ele era empurrado, como um porqueinho da índia naquelas barracas de festa junina.
Blimb pensou em intervir, mas quando se deu conta, também estava sercado por uns 12. era o fim, ele havia sucumbido a “rodinha punk”. Felizmente o monitor estava passando por ali naquele momento e desfez o desastre. Blimb queria agradecer, mas o tiozinho estava ocupado em tirar o papel higiênico molhado dó teto.
Continuou então a sua jornada, até que bateu um aperto. Ele precisava ir ao banheiro. Só que Blimb nunca havia estado numa escola antes. Entrou pela primeira porta que viu na frente. Instantes mais tarde descobriu que era um armário, pequeno e sujo como outro qualquer. Ele gostaria de ter ficado lá para ver o que tinha naquelas caixas que fediam tanto, mas foi jogado para fora. Dona Marieta estava lá com Sid Ney, mais atrapalhado do que nunca.
De volta aos corredores. Blimb então aprendeu que nada é tão ruim que não possa piorar. Uma vez que agora ele estava cansado, assustado, com vontade de mijar e com fome.
Sentiu aquele cheirinho de pão de batata. “deve ser a cantina”, pensou ele. Então foi seguindo aquele delicioso aroma... E de fato, em poucos minutos estava na cantina da escola. Mal teve tempo de sentir-se aliviado, pois um terror invadiu sua alma. Era a maior concentração de crianças, chips e cartas de Pokemon do mundo!!!
Mais assustador ainda foi imaginar como chegaria perto do balcão de salgados. Embora a maioria comprasse chips e não comida de verdade, havia muitos em volta do chinês pasteleiro, que tentava controlar a multidão, sem muito êxito.
Blimb pensou: “Só há um jeito... Mas não... seria horrível demais! Mas não posso... essa fome está me matando... só há um jeito... vou chegar de voadora. Dois pés nas costas de um resolve o meu problema.”
Decididio, Blimb se preparava para abrir caminho, quando algo inesperado aconteceu.
“Pééééééén”
Era o sinal. Significava que as crianças deveriam voltar para a sala. Blimb deveria ficar feliz, pois a cantina se esvaziaria, mas ao invés disso, sentiu um pânico quase tão grande quanto aquele que os Fat Dwuarff haviam provocado.
Todas as crianças corriam pela porta a fora, passando por cima uns dos outros e apostando quem tropeçava primeiro. Era quase como um estoura de uma manada de búfalos.
Depois de uns 5 minutos, Blimb pode levantar-se e ver a sua volta. Milhões de pacotes de chips no chão. Ninguém. Um silencio sepucral.
“bom... pelo menos agora tenho como descansar e comer alguma coisa, com calma, sem pressa...”
Foi aí que ele se lembrou que deveria voltar ao laboratório, como João Pedro havia falado. Mais desespero ainda, Blimb não se lembrava o caminho de volta. O jeito era apelar para a tentativa.
Correndo pelos corredores, subindo e descendo escadas, Blimb tentava encontrar alguém para ajuda-lo, mas todos estavam nas salas agora. Então, de repente, Blimb viu a porta. Ele tinha certeza de que ela levava ao laboratório. Correu em direção a ela, e sem pensar duas vezes entrou.
Numa fração de segundo, Blimb viu-se na situação mais sinistra de toda sua vida. Ao virar-se, viu uma sala cheia de alunos, todos com o mesmo olhar cansado e desiludido. Lá na frente, estava o professor, com seu jaleco sujo de giz e dizendo coisas que Blimb nunca conseguiria decifrar. No momento em que entrou, o mestre estava escrevendo coisas no quadro. Alguns dormiam, outros resolviam palavras-cruzadas e no fundo da sala, revistas circulavam livremente, assim como disc-mans e convites para o churrasco do fim de semana. Uma minoria prestava atenção, metade dessa minoria copiava e um quarto dessa metade entendia de fato.
Então todos se viraram e olharam para Blimb. Se sua estrutura celular permitisse, ele ficaria vermelho, mas como era um dragão, soltou fumacinhas tímidas pelas narinas, arregalou os olhos e sentiu as pernas tremendo.
O professor se virou e olhou Blimb:
-Jesus Cristo, como você é enorme!
Blimb notou que o velho usava óculos que pareciam binóculos, e se perguntou se deveria sair correndo ou morrer ali mesmo.
-Bem... procure uma carteira vazia e sente-se. A página é 74. Mas como vc é aluno novo, pode não ter o livro, então sente-se ao lado de alguém que tenha.
Blimb passou os olhos pela sala, procurando um lugar. Percebeu que ninguém, ou quase ninguém tinha o livro, então não fazia diferença. O problema maior é que o único lugar vago ficava num cantinho. Sendo assim, Blimb teve que passar entre as carteiras, derrubando um monte de coisas.
Acomodado (na medida do possível) na carteira, Blimb pôde ouvir os comentários maldosos dos colegas do fundo, a respeito da sua cauda. Mesmo depois de se sentar, Blimb sentia o olhar da sala. Mas gostava daquele ambiente, que aspirava conhecimento, sabedoria e respeito.
-Hei! Você aí do canto! Chega atrasado e fica viajando na batatinha? Você já sabe tudo? Pois ninguém é tão grande que não possa aprender e nem tão pequeno que não possa ensinar.
Que beleza! Menos de 15 minutos na sala e Blimb já havia levado sua primeira bronca. Achou melhor emprestar uma folha e começar a copiar a matéria. Mas ao começar, sentiu-se extremamente deprimido. Aqueles desenhos eram tão complexos de serem feitos! Nunca foi tão difícil fazer uma linha reta, ate porque Blimb sentia seus olhos fecharem, sua cabeça pesar e sua mão amolecer. O que estava acontecendo? Da onde vinha aquele sono? Antes que a resposta viesse, Blimb adormeceu profundamente na carteira.
....
Quando acordou, não sabia quanto tempo havia se passado. Era outro professor e outra aula, mas as pessoas a sua volta continuavam igualmente desinteressadas.
-Hei! Você aí, grandão! Por que não esta copiando? Quero ver suas anotações no fim da aula, hein?
Blimb novamente emprestou uma folha do seu colega ao lado, que acabou lhe dando o caderno, com a condição de que os desenhos da ultima página ficassem com ele.
Sentindo-se orgulhoso do seu primeiro caderno, Blimb percorreu as páginas vazias. Percebeu que já estava dividido por matéria. Tudo bem, organização era importante. Mas uma dúvida surgiu: “Que matéria é essa aí?”
Blimb não fazia idéia do que se tratava aqueles nomes estranhos no quadro, com todas aquelas flexas e parênteses.
Inicialmente achou que era História, pois do jeito que o professor falava, parecia alguma coisa a ver com o Egito ou algo assim. Mas então poderia ser também Geografia... Ou literatura... Mas no caderno tinha também Biologia, Química, Matemática, Física... Eram tantos nomes!
Resolveu copiar tudo em Física, já que os números e desenhos pareciam dizer alguma coisa do tipo Mecânica.
O que Blimb não esperava é que aquela aula iria transformar sua vida para todo o sempre. Estava atendo às explicações do professor e anotava tudo com a maior organização.
Mas de repente, uma voz lhe disse: “Inútil, inútil, inútil...” Santo Cristo! Estaria ele pirando? Aquela voz seria algum tipo de... Consciência?
Blimb já não sabia, não conseguia pensar, mal respirava normalmente, começou a transpirar e a gemer.
Foi aí que seus heróis surgiram! João Pedro, Paulo Adriano, Terezita e Emanuele entraram pela sala, como o quarteto fantástico invade território inimigo.
Sem pedir permissão ou licença, levaram Blimb dali.
De volta ao laboratório, Blimb tentava organizar seus pensamentos. Estava tudo tão confuso! Ele ficava a se perguntar por que e de que jeito... Mas no final a única pergunta era “comé que pode, cara?”
Os jovens cientistas conseguiram acalmar o pobre dragão. Graças ao estudo de Emanuele, eles agora sabiam que o melhor calmante, alimento e afrodisíaco dos dragões era o chocolate.
Infelizmente, os chocolates de verdade custavam quase dois reais na cantina da escola, então tiveram que comprar mm’s.
Blimb mastigava os mm’s coloridos, sentindo-se um pouco melhor, embora o corante o deixasse meio enjoado. Seus olhos estavam ainda rasos de lágrimas e ele queria ir embora dali o quanto antes.
-Calma, querido dragão, tudo ficará bem. – tranqüilizou-o Paulo Adriano
-É... Emanuelle encontrou um site que tem tudo o que precisamos saber.
-Na verdade, eu estava procurando imagens da Hello Kitty, mas aí tinha um link que mostrava um dragãozinho fofinho, parecido com você e eu resolvi entrar pra ver.
Blimb se esforçava pra se concentrar no diálogo dos amigos, mas as imagens da outra sala e do professor não lhe saiam da mente. Ele só pôde dizer:
-Foi tão horrível... me senti tão perdido... Foi a pior aula de Física que eu já tive...
João Pedro olhou para ele como se olhasse um cachorro abandonado:
-Não era Física. Era Biologia. E não é tão ruim assim... Você só teve uma revisão de mitose celular...
Pronto! Mitose celular! Era tudo que Blimb precisava ouvir pra entrar em colapso. Somente com 20 caixas de mm’s e muita paciência, os garotos conseguiram acalma-lo e devolve-lo a natureza.
Blimb agora estava livre de novo. Ainda meio zonzo, mas feliz por estar deixando aquele lugar tão estranho e tenebroso, chamado escola.
E enquanto voava lá em cima, admirando todas aquelas coisinhas e pessoinhas felizes, esqueceu de um pequeno detalhe – mas fundamental – olhar para frente!!
Com esse descuido, Blimb nem se deu conta como aconteceu tudo tão depressa. O fato é que momentos depois estava ele dentro de uma sala, onde todos o olhavam curiosamente. Blimb havia arregaçado a janela da escola da região.
Sentado entre os estilhaços da imensa janela, Blimb se sentiu pequenino, observado pela professora e os alunos da sexta serie, que ali estavam tendo uma palestra sobre “sexo e prevenção”.
O palestrante estava meio nervoso, era visível. O pobre rapaz estava cursando a faculdade de química e havia aceitado fazer a palestra só por que a diretora era amiga da sua mãe, faziam crochê juntas. Era a primeira vez que falava “dessas coisas” com crianças de 11 anos. E o crachá com seu nome “Sidy Ney” não o deixavam mais a vontade, pelo contrário, ele havia notado comentários inconvenientes a respeito disso. Estava se esforçando para ser claro nas explicações e agir com naturalidade ao ensinar como colocar uma camisinha. Mas era realmente constrangedor fazer isso com uma banana, diante de uma sala repleta de pirralhos! E agora aquele ser esquisito havia entrado de um jeito nada convencional e derrubado todos os seus potinhos com pílulas e coisas do gênero. O que mais faltava acontecer? Sidy se perguntava, quando o enorme dragão se levantou. Parecia bastante envergonhado também, o que fez Sidy relaxar um pouco. “Há males que vêm para o bem”. Lembrou ele.
E de fato, com a intromissão de Blimb na sala, as crianças se controlaram um pouco. Pararam de rir uma para as outras e se fixaram em Blimb.
Tanto quanto pra variar, Blimb se sentiu constrangido. Mas ao contrário do episódio com os Fat Dwarffs, agora ele sentiu que naquela sala ninguém estava disposto a sacanear. Olhavam para ele com uma curiosidade que era quase assustadora.
Olhou em volta e só então percebeu que se tratava de uma escola. Não que ele já estivesse estado em uma, mas entre os estilhaços da janela, estava uma grande placa, escrita “Escola Estadual de Campo Largo, Professor Bonifácio Estácio”. Achou interessante toda aquela coisa... Havia mapas e o alfabeto em cima da lousa. Para os ensinos geográficos, o globo terrestre estava na mesa da professora. Também haviam alguns trabalhos presos nas paredes. Mas Blimb notou que embora o local aspirasse cultura e conhecimento, aquelas crianças pareciam incrivelmente ignorantes. Quer dizer, a maioria usava a camisa por dentro da calça, que por sua vez quase passava do peito. Para completar o visual patético, alguns tinham o nariz escorrendo e as meninas usavam 52 000 tic tacs no cabelo e aquelas pulseirinhas bregas de silicone, até o cotovelo.
Blimb ficou a se perguntar como sairia dali, porque aqueles olhares sobre ele estavam começando a deixa-lo nervoso.
E aquele cara lá na frente... qualé a dele, hein? Cheio de coisas esquisitas na mão, com uma cara de perdido. Mas estranho que isso tudo era a professora. Embora a sala estivesse cheia de alunos, ela não parecia interessada em nenhum deles. Estava sentada na sua mesa, mascando um chiclete e lendo uma revista “Bons Fluidos” quando Blimb adentrou pela janela. Depois do acidente, as mudanças consistiram em uma redução na velocidade de mascar o chiclete e os olhos, que saíram da revista e pararam sob Blimb. Meio sem querer, a professora murmurou para si mesma “Só me falta essa... Cada um que me aparece...”
Mas como era de praxe, todos esperavam que ela, a professora dona Marieta, resolvesse a situação.
Como nada se fez, nada se resolveu. É a ordem natural das coisas. Porém, dona Marieta, jovem professora da sexta séria de uma escolinha pública, não ia perder a oportunidade que a vida estava lhe dando, naquele exato momento. Já havia reparado que o também jovem palestrante não se adaptava na sala de aula, assim como ela. E, além disso, tinham muitos outros pontos em comum, como por exemplo, dificuldades com pílulas e camisinhas... Após refletir alguns momentos, elaborou um engenhoso plano para vazar da sala, junto com Sidy Ney.
Levantou-se de sua mesa, e usando toda a sua desenvoltura teatral disse:
- Isso é um absurdo! Como pode invadir assim a minha sala de aula, no meio da brilhante palestra sobre... Bananas e suas embalagens exóticas. Isso não deve ser tolerado, comunicarei o fato à diretoria, imediatamente!
E assim saiu da sala. Antes, é claro, deu uma piscadela para Sidy Ney, que ficou meio confuso, mas achou melhor acatar a sugestão de sair dali, mesmo que fosse para os braços daquela professora esquisita. Mal teve tempo e coordenação motora para pegar suas coisas, tanto que muitos dos seus potinhos e camisinhas ficaram por ali mesmo, entregues a própria sorte com 25 crianças e um dragão medieval.
É claro que os alunos não se importaram em ficar a sós com Blimb, muito pelo contrário, sentiram-se completamente a vontade para explorar aquele estranho ser.
-Acho que devemos joga-lo de novo lá fora... – disse Maria Terezita, a única assustada com Blimb. Mais tarde, Blimb descobriria que ela tinha medo de tudo, porque nunca tinha tentado nada e também porque sofria de asma crônica.
-Claro que não! Não seja tonta, Terezita. A gente tem que primeiro ver como é que ele funciona – essa frase provocou calafrios em Blimb, que arregalou os olhos e fitou cada uma das crianças. Elas pareciam muito curiosas, e algumas já até se aproximavam para ver melhor e mexer nas escamas de Blimb, enquanto comentavam: “Olha! Que nariz” “Olha!! Olha as patas!” “cara, é praticamente o lobo-mau da chapeuzinho vermelho!”
-Ei! Pare com isso! O que você pensa que está fazendo?
-Olha gente! Ele fala!
-É claro que eu falo. O que você esperava? Que eu latisse?
Aos poucos as crianças foram ganhando intimidade com Blimb. E ele também se sentiu à vontade com elas. Tanto que no final da aula, estavam todos ao seu redor, para ouvir as aventuras do dragão.
O sinal tocou e aos poucos as crianças pegaram suas mochilas e lancheirinhas dos teletubies, e foram para casa. Mas 4 ficaram ali, olhando para Blimb. Eram dois meninos e duas meninas, uma delas Maria Terezita, com sua bomba asmática. A outra era Emanuele, visivelmente patricinha, pois usava maquiagem cremosa e todos os seus tic tacs e pulseiras eram rosa. A cada dois cm de corpo, havia um pom pom. Os meninos eram aparentemente normais, até que começaram a falar. Os dois eram visurados em biologia. João Pedro foi quem falou primeiro:
-Vamos leva-lo ao laboratório, para que possamos recolher amostras da epiderme.
-Concordo plenamente. – Paulo Adriano era ainda um iniciante, mas deixou Blimb bastante impressionado, com seus conhecimentos de Zoologia e Botânica.
No laboratório, houve um pequeno imprevisto.
Ao adentrarem no recinto, deram com uma cena no mínimo inusitada. Sidy Ney dava um amasso na professorinha, entre os tubos de ensaios e buretas. Quando entraram, fazendo todo aquele som de pacote Elma Chips sendo aberto e todo barulho característico de crianças. Dona Marieta tratou de levantar o coque sobre a cabeça e colocar a camisa dentro da saia novamente. E conseguiu, com grande desenvoltura, agir naturalmente. Em compensação, Sid Ney estava mais embaraçado do que nunca. E pra piorar um pouco mais a situação, tentou disfarçar:
-É... Bem... Crianças... Digo... Pré-adolescentes (risada forçada) eu estava aqui mostrando algumas coisas a respeito da palestra para a professora Marieta... Adoraria mostrar a vocês também, mas creio que é melhor esperar ate que completem seus 18 anos e...
Nisso Marieta já estava quase tendo um colapso. Conhecia bem seus alunos e sabia que aquela marca de batom no pescoço, o cabelo desajeitado e o zíper da calça aberto, condenariam o ato. Mas teve consciência de que Sid Ney era em demasia ingênuo, para perceber esses detalhes. Então tratou de ajuda-lo. Sem se importar em interromper o discurso do jovem palestrante, puxou-o para fora da sala, deixando as crianças e Blimb sozinhos, no laboratório.
João Pedro colocou um banquinho no centro da sala:
-Sente-se aqui – indicou o banco a Blimb.
Blimb, um tanto quanto constrangido, por estar sendo observado com tanta curiosidade, sentou-se.
-Muito bem, equipe. Vamos começar a estudar o objeto.
-Objeto??? Como assim, objeto? Fique sabendo que eu sou um legítimo dragão medieval e se estou aqui é porque...
-Shhhh! Silencio! Você deve permanecer calado e imóvel. Faça apenas o que lhe é dito.
Então joão Pedro foi buscar as pranchetas num armário do outro lado da sala. Emanuele aproximou-se, com seu jeitinho meigo e disse baixinho para Blimb:
-não se preocupe... o JP é assim mesmo. Se empolga um pouco sempre que pode. Nós não vamos fazer mal a você.
Isso tranqüilizou Blimb. Mas essa paz durou apenas alguns instantes, porque logo João Pedro voltou e distribuiu as pranchetas e as ordens:
-Paulo, você faz a classificação, de acordo com os princípios de Newton e Darwin. Eu vou tentar localizar a espécie no Atlas biológico. Terezita, recolha as amostras de pele...
-Mas eu sou alérgica! Eu acho...
-Ah... tudo bem... Emanuele, você fica com as amostras. Terezita, coloque uma máscara, luvas e roupa da NASA, precisamos de você no microscópio.
E assim foi por mais ou menos duas horas. Blimb foi cutucado, raspado, cheirado e até pintado, com o esmalte hiper-brilho de Emanuele. No fim, estava exausto e agradeceu aos céus quando João Pedro disse:
-Muito bem, equipe. Vamos dar um intervalo agora. Continuaremos ao término de Malhação.
-Aaaaaaaah!! É hoje!! É hoje!!! – exclamou Emanuele
-O que? O que aconteceu?!! – Blimb já imaginava coisas terríveis...
-É hoje que vamos descobrir se o Gui vai ficar com a Julia e sacar que a gravidez da Valéria é só fachada. E também vão desvendar o mistério do décimo quarto incêndio no Giga Byte... Quem será que foi dessa vez? A Drika, com seu cabelo roxo punk ou a santinha da Letícia, só pra chamar atenção do Rafa?
Blimb não entendeu nada, mas achou melhor não fazer mais perguntas. Até porque todos estavam saindo do laboratório e se encaminhando para a tv mais próxima, no grêmio da escola. O ultimo a sair foi João Pedro, que disse antes de fexar a porta:
-Você pode dar uma saída se quiser... só tome cuidado pra voltar a tempo, temos que terminar isso ainda hoje, porque amanhã eu tenho dentista. Ah... e não se confunda com as salas, são bem parecidas, mas esse é o único laboratorio, não erre.
E foi embora. Blimb então decidiu dar um role só pra ver qualé que era que tava pegando.
Andando pelos corredores da escola, Blimb refletia sobre a realidade daquela gente. Eram muito interessantes, sem dúvida. Tinham um modo de vida extremamente simples, e mesmo assim eram felizes a ponto de rirem do vento. Podiam comer chips o dia todo, todos os dias e ainda assim respiravam normalmente. Não precisavam de nada realmente importante, como objetivo de vida, oq importava era o final da novela, que já ia ao décimo segundo ano, com o vigésimo quinto elenco e o primeiro roteiro. E mesmo assim, conseguiam levantar de manhã para ir a escola, rir e brincar de adoleta no recreio.
Porem, notou também que haviam fatores fundamentais para que essa rotina funcionasse perfeitamente. Notou que todos estavam agrupados, e se sentiam seguros e felizes. Mas alguns estavam isolados, infelizes e pra piorar um pouco, avacalhados por tudo e todos. Eram esses os pobres “deslocados”, que não tinham amigos, nem dinheiro pra comprar chips, nem uma mochila do Barnei.
Blimb percebeu que estes ficavam pelos cantos dos corredores, olhando com medo para todos e fazendo o possível para se esconder. Um menino desses, foi emburrado por um grandão, que por sua vez, andava em grupo. Então todos se juntaram e fizeram uma rodinha ao redor do pequeno nerd. Ele era empurrado, como um porqueinho da índia naquelas barracas de festa junina.
Blimb pensou em intervir, mas quando se deu conta, também estava sercado por uns 12. era o fim, ele havia sucumbido a “rodinha punk”. Felizmente o monitor estava passando por ali naquele momento e desfez o desastre. Blimb queria agradecer, mas o tiozinho estava ocupado em tirar o papel higiênico molhado dó teto.
Continuou então a sua jornada, até que bateu um aperto. Ele precisava ir ao banheiro. Só que Blimb nunca havia estado numa escola antes. Entrou pela primeira porta que viu na frente. Instantes mais tarde descobriu que era um armário, pequeno e sujo como outro qualquer. Ele gostaria de ter ficado lá para ver o que tinha naquelas caixas que fediam tanto, mas foi jogado para fora. Dona Marieta estava lá com Sid Ney, mais atrapalhado do que nunca.
De volta aos corredores. Blimb então aprendeu que nada é tão ruim que não possa piorar. Uma vez que agora ele estava cansado, assustado, com vontade de mijar e com fome.
Sentiu aquele cheirinho de pão de batata. “deve ser a cantina”, pensou ele. Então foi seguindo aquele delicioso aroma... E de fato, em poucos minutos estava na cantina da escola. Mal teve tempo de sentir-se aliviado, pois um terror invadiu sua alma. Era a maior concentração de crianças, chips e cartas de Pokemon do mundo!!!
Mais assustador ainda foi imaginar como chegaria perto do balcão de salgados. Embora a maioria comprasse chips e não comida de verdade, havia muitos em volta do chinês pasteleiro, que tentava controlar a multidão, sem muito êxito.
Blimb pensou: “Só há um jeito... Mas não... seria horrível demais! Mas não posso... essa fome está me matando... só há um jeito... vou chegar de voadora. Dois pés nas costas de um resolve o meu problema.”
Decididio, Blimb se preparava para abrir caminho, quando algo inesperado aconteceu.
“Pééééééén”
Era o sinal. Significava que as crianças deveriam voltar para a sala. Blimb deveria ficar feliz, pois a cantina se esvaziaria, mas ao invés disso, sentiu um pânico quase tão grande quanto aquele que os Fat Dwuarff haviam provocado.
Todas as crianças corriam pela porta a fora, passando por cima uns dos outros e apostando quem tropeçava primeiro. Era quase como um estoura de uma manada de búfalos.
Depois de uns 5 minutos, Blimb pode levantar-se e ver a sua volta. Milhões de pacotes de chips no chão. Ninguém. Um silencio sepucral.
“bom... pelo menos agora tenho como descansar e comer alguma coisa, com calma, sem pressa...”
Foi aí que ele se lembrou que deveria voltar ao laboratório, como João Pedro havia falado. Mais desespero ainda, Blimb não se lembrava o caminho de volta. O jeito era apelar para a tentativa.
Correndo pelos corredores, subindo e descendo escadas, Blimb tentava encontrar alguém para ajuda-lo, mas todos estavam nas salas agora. Então, de repente, Blimb viu a porta. Ele tinha certeza de que ela levava ao laboratório. Correu em direção a ela, e sem pensar duas vezes entrou.
Numa fração de segundo, Blimb viu-se na situação mais sinistra de toda sua vida. Ao virar-se, viu uma sala cheia de alunos, todos com o mesmo olhar cansado e desiludido. Lá na frente, estava o professor, com seu jaleco sujo de giz e dizendo coisas que Blimb nunca conseguiria decifrar. No momento em que entrou, o mestre estava escrevendo coisas no quadro. Alguns dormiam, outros resolviam palavras-cruzadas e no fundo da sala, revistas circulavam livremente, assim como disc-mans e convites para o churrasco do fim de semana. Uma minoria prestava atenção, metade dessa minoria copiava e um quarto dessa metade entendia de fato.
Então todos se viraram e olharam para Blimb. Se sua estrutura celular permitisse, ele ficaria vermelho, mas como era um dragão, soltou fumacinhas tímidas pelas narinas, arregalou os olhos e sentiu as pernas tremendo.
O professor se virou e olhou Blimb:
-Jesus Cristo, como você é enorme!
Blimb notou que o velho usava óculos que pareciam binóculos, e se perguntou se deveria sair correndo ou morrer ali mesmo.
-Bem... procure uma carteira vazia e sente-se. A página é 74. Mas como vc é aluno novo, pode não ter o livro, então sente-se ao lado de alguém que tenha.
Blimb passou os olhos pela sala, procurando um lugar. Percebeu que ninguém, ou quase ninguém tinha o livro, então não fazia diferença. O problema maior é que o único lugar vago ficava num cantinho. Sendo assim, Blimb teve que passar entre as carteiras, derrubando um monte de coisas.
Acomodado (na medida do possível) na carteira, Blimb pôde ouvir os comentários maldosos dos colegas do fundo, a respeito da sua cauda. Mesmo depois de se sentar, Blimb sentia o olhar da sala. Mas gostava daquele ambiente, que aspirava conhecimento, sabedoria e respeito.
-Hei! Você aí do canto! Chega atrasado e fica viajando na batatinha? Você já sabe tudo? Pois ninguém é tão grande que não possa aprender e nem tão pequeno que não possa ensinar.
Que beleza! Menos de 15 minutos na sala e Blimb já havia levado sua primeira bronca. Achou melhor emprestar uma folha e começar a copiar a matéria. Mas ao começar, sentiu-se extremamente deprimido. Aqueles desenhos eram tão complexos de serem feitos! Nunca foi tão difícil fazer uma linha reta, ate porque Blimb sentia seus olhos fecharem, sua cabeça pesar e sua mão amolecer. O que estava acontecendo? Da onde vinha aquele sono? Antes que a resposta viesse, Blimb adormeceu profundamente na carteira.
....
Quando acordou, não sabia quanto tempo havia se passado. Era outro professor e outra aula, mas as pessoas a sua volta continuavam igualmente desinteressadas.
-Hei! Você aí, grandão! Por que não esta copiando? Quero ver suas anotações no fim da aula, hein?
Blimb novamente emprestou uma folha do seu colega ao lado, que acabou lhe dando o caderno, com a condição de que os desenhos da ultima página ficassem com ele.
Sentindo-se orgulhoso do seu primeiro caderno, Blimb percorreu as páginas vazias. Percebeu que já estava dividido por matéria. Tudo bem, organização era importante. Mas uma dúvida surgiu: “Que matéria é essa aí?”
Blimb não fazia idéia do que se tratava aqueles nomes estranhos no quadro, com todas aquelas flexas e parênteses.
Inicialmente achou que era História, pois do jeito que o professor falava, parecia alguma coisa a ver com o Egito ou algo assim. Mas então poderia ser também Geografia... Ou literatura... Mas no caderno tinha também Biologia, Química, Matemática, Física... Eram tantos nomes!
Resolveu copiar tudo em Física, já que os números e desenhos pareciam dizer alguma coisa do tipo Mecânica.
O que Blimb não esperava é que aquela aula iria transformar sua vida para todo o sempre. Estava atendo às explicações do professor e anotava tudo com a maior organização.
Mas de repente, uma voz lhe disse: “Inútil, inútil, inútil...” Santo Cristo! Estaria ele pirando? Aquela voz seria algum tipo de... Consciência?
Blimb já não sabia, não conseguia pensar, mal respirava normalmente, começou a transpirar e a gemer.
Foi aí que seus heróis surgiram! João Pedro, Paulo Adriano, Terezita e Emanuele entraram pela sala, como o quarteto fantástico invade território inimigo.
Sem pedir permissão ou licença, levaram Blimb dali.
De volta ao laboratório, Blimb tentava organizar seus pensamentos. Estava tudo tão confuso! Ele ficava a se perguntar por que e de que jeito... Mas no final a única pergunta era “comé que pode, cara?”
Os jovens cientistas conseguiram acalmar o pobre dragão. Graças ao estudo de Emanuele, eles agora sabiam que o melhor calmante, alimento e afrodisíaco dos dragões era o chocolate.
Infelizmente, os chocolates de verdade custavam quase dois reais na cantina da escola, então tiveram que comprar mm’s.
Blimb mastigava os mm’s coloridos, sentindo-se um pouco melhor, embora o corante o deixasse meio enjoado. Seus olhos estavam ainda rasos de lágrimas e ele queria ir embora dali o quanto antes.
-Calma, querido dragão, tudo ficará bem. – tranqüilizou-o Paulo Adriano
-É... Emanuelle encontrou um site que tem tudo o que precisamos saber.
-Na verdade, eu estava procurando imagens da Hello Kitty, mas aí tinha um link que mostrava um dragãozinho fofinho, parecido com você e eu resolvi entrar pra ver.
Blimb se esforçava pra se concentrar no diálogo dos amigos, mas as imagens da outra sala e do professor não lhe saiam da mente. Ele só pôde dizer:
-Foi tão horrível... me senti tão perdido... Foi a pior aula de Física que eu já tive...
João Pedro olhou para ele como se olhasse um cachorro abandonado:
-Não era Física. Era Biologia. E não é tão ruim assim... Você só teve uma revisão de mitose celular...
Pronto! Mitose celular! Era tudo que Blimb precisava ouvir pra entrar em colapso. Somente com 20 caixas de mm’s e muita paciência, os garotos conseguiram acalma-lo e devolve-lo a natureza.
Blimb agora estava livre de novo. Ainda meio zonzo, mas feliz por estar deixando aquele lugar tão estranho e tenebroso, chamado escola.
3 comentários:
auhhauahuahuhauauhhuaa
malditos fisicos...
caralho
sem duvida, o melhro capitulo...
TANTO PQ
EH O CAPITULO X!!!
(deveria aparecer o ponto X no meio da historia... mas ninguem entenderia... apenas os que assiduamente frequentam nossa sala de aula ^^)
bejaum!
~> vo começa a faze as ilustrações ^^
Eta porra!
arriégua fdp!!!
que capítulo feliz!!!!!
uahuhauhauhahua
weeeeeeeeeeeeeeeee
fico moh rox /o/
depois eu leio do 9 ao 3 xDD
=***
AHUAuhaUHAuhuhaUHAuh
caraaaalho O_O
mto mto mto mto foda
auhauhahu me caguei de ri
tenho medo de voce.
uahuauhauh
¬¬ tchau!
ºoOSooz~
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