"Na verdade, antes da notícia da chegada dos primos, o Dia das Crianças de Joãozinho nada tinha de especial... Tirando o fato de que ele acordara um pouco mais tarde, em virtude do feriado. Um pouco, vale ressaltar. Foi despertado pelos gritos neoróticos de Pedro e seu João, que discutiam efusivamente a respeito do paradeiro da chave do carro. Ora, Pedro, vestibulando típico, não teve direito a feriado e contava com a carona 'paitrocinada' pra chegar a tempo no cursinho. Após algum tempo de discussão, concluiu que seria mais fácil esperar o ônibus do que encontrar as chaves. Em uma casa com tantas pessoas e tantos cantos misteriosos, encontrar qualquer coisa é uma missão que poucos realizam com sucesso.
Despachado o primogênito, seu João entreteu-se com as gêmeas, que insistiam na idéia de que existiam seres mitológicos na casa. Segundo as meninas, somente em lugares habitados por duendes e gnomos é que coisas somem e aparecem misteriosamente. Pouco adiantou tentar dissuardir as pequenas dizendo que gnomos não existem. Elas tinham a idéia fixa e o único modo que seu João achou de resolver a situação foi entrar na brincadeira:
- Muito bem, filhas... Os gnomos estão mesmo por toda a casa. É impossível viver assim! Então, vocês estão escaladas para nos livrar dessas terríveis criaturas e recuperar a dignidade desse lar!
- Papai, o que é dignidade?
- É... Bem... Outro nome para 'chaves do carro'.
Assim, as gêmeas ficaram satisfeitas e seu João também. Com as meninas ocupadas, ele poderia se dedicar em efetuar sua tarefa doméstica preferida: cuidar do jardim.
Enquanto isso, dona Rosário estendia as roupas no varal dos fundos. Inevitavelmente (como sempre) ela não pôde deixar de ouvir o que dizia a vizinha da direita. A mulher narrava ao marido uma história pra lá de cabulosa, a respeito da vizinha da rua de cima. Eis que no auge do drama, o telefone tocou e dona Rosário teve que abandonar a saga pelo final. Correu para a cozinha a fim de atender o telefone o mais rápido possível. Mas era a primogênita Clara, que após discursar longamente a respeito da última discussão da kit net, comunicou que almoçaria na casa dos pais.
Após a conversa, dona Rosário fez os cálculos: Além da família residente na casa, o almoço teria que dar conta dos primos, de Clara e dos pais de seu João, que chegariam do interior a qualquer momento. Ou seja, ela teria que cozinhar algo mais. Para ela, não tinha problema algum, adorava cozinhar! E além do mais, enquanto se distraia entre temperos e quitutes, teria tempo suficiente para bolar um final conveniente (ou não) para o boato que acabara de ouvir.
Enquanto a casa já ia engrenando as atividades do dia, Joãozinho ainda estava no quarto, pensando a respeito do presente que iria ganhar naquele dia especial. Uma semana antes, ele havia comentado seu desejo contido por um Acqua Play. O pai, apesar de não demostrar a empolgação esperada, não negou o pedido. Esperançoso, Joãozinho aguardava o instante tão esperado.
Eis que a campainha toca. Ao olhar pela janela, Joãozinho vê que Raul e Ricardo haviam chegado. Sem esperar, correu para a porta, a fim de receber os primos. Nem lembrou que estava de pijamas e pantufas.
Os garotos, ao verem Joãozinho em tal estado, não puderam conter os comentários a respeito da estampa da vestimenta de Joãozinho:
- Cara, esse teu pijama é muito intergalático!
- Tá parecendo um et.
Para qualquer pessoa normal, isso seria contrangedor e ofensivo, mas como eram garotos de 10 anos, essas considerações tiveram outra conotação. E levando em conta o contexto, o pijama de Joãozinho deu margem à mais nova criação dos meninos:
- Vamos brincar de guerra nas estrelas!!
E assim, os três correram para o quarto e passaram um bom tempo se preparando para as batalhas que aconteceriam no dia.
Na cozinha, dona Rosário e Clara (que chegara a pouco) se ocupavam com o cardápio.Clara era adepta à pedirem uma pizza, ou algo igualmente prático e rápido, uma vez que estava ali unicamente para comer. Após o almoço, ela e as amigas iriam para a praia mais próxima, tomar 'aquele' bronzeado. A mãe, contrariada, insistia em servir Strogonoff e arroz branco, pois era fácil e saboroso. Em outras palavras, ela não teria muito trabalho e encheria o bucho de todos.
Falando em bucho de todos, os parentes do interior chegaram no instante em que dona Rosário descartava a idéia do fast-food.
Seu João, que lutava contra o cortador de grama, se encarregou de receber os pais. Eram raros os momentos em que ele revia os progenitores, e por isso, tinha tomado o cuidado de arranjar tudo para que pudesse fazer com o pai o que ambos mais gostavam: cortar a grama. Mal chegando, seu José, pai de seu João, já entrou no clima familiar e pôs-se a ajudar o filho. Dona Maria, mãe de seu João, ficou com a árdua tarefa de descarregar o Fusca e fazer o social com o restante da família.
Tirando o caos culinário na cozinha, problemas mecânicos com o cortador de grama e a suposta guerra cósmica no andar de cima, a manhã transcorreu sem maiores novidades. É claro que, no quarto dos meninos houveram alguns inprevistos. Na ânsia de atingir o et, no caso o Joãozinho, Raul não mediu esforços e usou o colchão para derrubar o inimigo. O pequeno garoto quase entrou em estado se inconsciência, mas o chamado para o almoço o despertou e ficou tudo bem.
Imaginem agora o que é um grande almoço em família com uma família das grandes. Dona Rosário queria ter um momento fraterno, servir cada criança e apresentar uma palavra de amor antes da refeição. Pena que os homens estivessem famintos e ansiosos para voltar ao trabalho e as crianças empolgadas com o novo truque de soltar arroz pelo nariz. Clara almoçou ortodoxamente, porém com o celular ao lado, respondendo todas as eventuais mensagem que chegavam. 'Organizar viagem em grupo é complicado...', justificou-se. Papo vai, papo vem, dona Rosário conseguiu convencer Clara a levar as gêmeas para o litoral:
- Vai ser bom para as meninas, minha filha. Elas precisam de um exemplo de maturidade feminina, moderna e responsável.
Vaidosa como ninguém, Clara acatou a idéia e, logo após o almoço, aguardou com as gêmeas a carona que as levariam para uma viagem maginífica.
- O que é magnífica, Clara?
- Bem... É... Outro nome para 'praia'.
Joãozinho estava tão ansioso para receber o presente que nem conseguiu comer direito. Ao fim, quando a mãe já retirava os pratos, ele ficou a olhar para o pai, como quem diz 'é agora?'. Porém, seu João não percebeu as indiretas oculares do filho e voltou a cortar a grama como se nada tivesse acontecido.
Preocupado , Joãozinho conversou com os primos sobre seu problema:
- Como é que ele pode ter esquecido? Como?
Sua desilusão era tanta que os primos temeram não conseguirem animar Joãozinho novamente. Felizmente, Ricardo teve uma idéia:
- Já sei! Vamos brincar de guerra nas estrelas!
Nada original... Mas funcionou.
Dona Rosário havia percebido a tristeza de Joãozinho, e decidiu conversar com seu João a respeito do presente não dado:
- João, querido. Não acha que Joãozinho esperava receber alguma coisa nesse dia das crianças?
- É claro que sim, querida. Mas estive pensando... Se eu comprasse algo pra ele, teria que comprar também para as gêmeas. E assim meu salário não aguenta.
Pior que era verdade... Três presentes em um único mês acabaria com o orçamento da família. Porém, como toda boa mãe, dona Rosário encontrou uma saída:
- Por que você não compra um presente para os três?
Dito e feito. Seu João e seu José partiram imediatamente para praticar a segunda atividade preferida: economizar.
A guerra cósmica estava no ápice: os dois astronautas lutavam com travesseiros e colchão contra o temível et, que resistia bravamente usando apenas um estrado de cama.
Ao findar algumas horas, astronautas e et estavam exaustos, e decidiram economizar um pouco de energia: foram assistir televisão.
Ora, sabe-se que no Dia das Crianças, todos os canais exibem progamas especiais, dedicados aos piquituchos. Sentados frente à tv, os garotos assistiam a uma loira esbelta que cantava cantigas infantis. No começo, eles estranharam:
- Que esquisita essa mulher. Por que ela canta gemendo?
- Por que ela se abaixa desse jeito?
- Por que ela está semi-nua?
Mas no cair da tarde, muita coisa mudou, inclusive suas concepções infantis:
- Uhuuuu! Meu pintinho amarelinho quer comer na sua mão!
- Será que ela consegue dormir sentada? É só jogar a cabeça pra frente que já tem um travesseiro natural.
Foi mais ou menos aí que seu João chegou com o presente três-em-um.
Joãozinho ficou maravilhado! Era só alegria quando abriu o pacote. Mas ao ver o conteúdo, ficou novamente decepcionado:
- Que tipo de ser humano presenteia o próprio filho com bebelô de gesso?
Seu João, indiferente ao comentário, retornou para o jardim, deixando Joãozinho sozinho com o bibelô e os primos.
A maioria das crianças ficaria traumatizada, e talvez Joãozinho também, se naquele momento a apresentadora da tv não estivesse fazendo um jogo que envolvia água, garotos inocentes e paquitas peitudas de blusa branca. O melhor de tudo, é que ele poderia participar da brincadeira. Bastava telefonar para o número na tela. E assim, os três garotos garantiram a diversão das próximas horas.
Na praia, Clara estava em pleno desespero. As gêmeas haviam sumido meio à multidão. Ela já acionara os salva-vidas, policiais, sorveteiros e sequestradores, e nada de encontrar as garotas. Já pensava no seu destino na prisão, por perder as irmãzinhas inocentes. A vantagem foi que, de tanto caminhar de um lado para o outro da praia, ela conseguira o tal bronzeado que tanto desejava. Depois de duas horas de busca, Clara tentou pela primeira vez telefonar pra casa e comunicar à família o desaparecimento das caçulas oficiais. Mas o telefone só dava ocupado, o que a deixou ainda mais nervosa. Sem saber o que fazer, continuou a procurar de um canto a outro da praia lotada. Só no fim da tarde, quando o sol já tinha se posto, foi que ela desistiu. Resolveu que o melhor a fazer era voltar pra casa e enfrentar o destino. Como toda jovem, Clara tentou bolar uma história para justificar o desaparecimento das gêmeas. Já estava com esquema montado quando, algumas horas depois, desceu do táxi, da frente da casa dos pais.
Logo que entrou na sala, já começou a narrar sua história progamada. Os pais ouviram sem nada dizer, até que as gêmeas adentraram no recinto:
- Mas de onde vocês vieram?! - exclamou Clara, surpresa.
- Da cozinha. - Responderam as meninas, juntas.
- Elas chegaram há algumas horas - explicou dona Rosário - parece que cansaram de procurar por você e resolveram voltar pra casa.
Atônita, Clara não podia acreditar que as garotinhas de um metro e vinte tinham conseguido voltar sozinhas para casa.
Enquanto isso, os meninos assistiam o encerramento do progama que havia dado a eles um novo objetivo de vida. Agora, Joãozinho não se preocupava mais com problemas supérfluos como presentes e guerras de travesseiros. Tudo, absolutamente tudo, tinha um sentido diferente. E tudo tendia a peitos se balançando no ritmo de músicas infantis repletas de mensagens subliminares. Ele havia, involuntariamente, se transformado.
No fim do dia, nem todos perceberam, mas cada membro da família havia aprendido uma nova lição."
Morais da História:
"Filhos não gostam de bibelôs."
"Diante de uma grama alta, problemas familiares devem ser ignorados."
"Crianças possuem senso de localização. Adolescentes recém-emancipadas, não."
"A televisão ajuda na (de)formação de mentes jovens."
Posted by: Kika Dalossi, que não é criança, mas comemorou o Dia das Crianças.
Colaboração: Sil Boriani, Bob, Dé Anacleto, Fer Mc'Kagan
obs:
Quanto à gafe cometida no post anterior, relativa ao número exatos de filhos do casal em questão: Gente, se eu soubesse contar, estaria fazendo Engenharia no ITA. Como só sei escrever e mais nada, estou no Mesa de Boteco. Acho que eram 5, ou 6 crianças, sei lá. O fato é que eram MUITAS. E isso basta.
4 comentários:
ai meu deus
n ta faltando um pedaço?
tipo, parece q tá pela metade
mas tá massa, pra variar
principalmente a parte dos gnomos. aqui em casa eles existem egostam de pegar isqueiros...
aqui também tem gnomossssssss *--------------------*
eles gostam de roubar meus vinis, e apareceem depois de uma boa dose de cachaça
aliás, aposto que a Clara se embebedou e se atracou com o barman de um buteco lá na praia e deixou as gêmeas lá, sozinhas
"piquituchos" será incorporado ao meu vocabulário com toda certeza hahahahaha
O texto me lembrou aquele programa "Mundo da lua" onde udo acontecia com todos ao mesmo tempo hahaha era divertido ^^
Beeeeeeeeeeeeeeijos do Doutor =)
Bah, eu leio essas histórias e não vejo a hora de ter uns filhos. xD
Como será bacana ensinar alguém, a ser alguém.
Belíssimo texto!
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