15 de jan. de 2008
O Gato de Botas
Mas hoje, caros leitores, eu encontrei uma solução!
Enquanto lia o meu atual livro de cabeceira (mesmo não tendo uma cabeceira), me deparei com um clássico infantil: "O Gato de Botas". No mesmo instante, um incrível sentimento de nostalgia me invadiu e eu não pude deixar de degustar cada palavra e pequeno trecho dessa historinha.
Apesar dessa fábula ter povoado bons anos da minha infância, essa leitura foi completamente nova. Isso porque, creio eu, muita coisa se passou desde a última vez em que eu li e refleti sobre O Gato de Botas.
Sem mais delongas, transcrevo na íntegra a fábula De Charles Perrault, sem dispensar as minhas considerações pessoais:
"Um moleiro deixou a seus três filhos todos os bens que possuía: seu moinho, seu burro e seu gato. A partilha foi logo feita, nem o tabelião nem o procurados foram chamados, pois logo teriam dado cabo de todo o pobre patrimônio...
Ooooooooooopa!!! Notem a sutileza de Perrault. Quase ninguém percebe, mas eu vi! Eu vi!!! O desprezo por representantes jurídicos tornou-se mais do que claro, já no primeiro parágrafo. Só faltou dizer que advogado sempre tira vantagens das pequenas causas. Mas tudo bem, sem ressentimentos. Continuando:
O mais velho ficou com o moinho, o segundo com o burro e para o menor sobrou apenas o gato.
Aí ó! Caçulas sempre se ferram nas partilhas. Permitam uma breve reivindicação: Caçulas sempre são bode expiratório para as traquinices dos mais velhos! E além de ter que aturar todos os tipos de humilhações, não dispõe de um irmão menor para aliviar as tensões. Sem falar na política de reuso... Caçulas sempre têm 'artigos de segunda mão', pra não falar outra coisa...
O último não conseguia se conformar com tão pobre lote:
- Meus irmãos - dizia ele - poderão juntos ganhar a vida honestamente, quanto a mim quando tiver comido meu gato e feito com seu pêlo um agasalho para as mãos, sem dúvida morrerei de fome.
Taí um cara de visão limitada... A parte de comer o gato é discutível, dá margens a múltiplas interpretações, mas eu não vou entrar nessa questão. O que mais me impressiona é que ele diz que depois de fazer do gato uma luva, vai morrer de fome! Sentiram a incoerência?? Por que raios um quase- morto- de- fome precisa de luvas? Ora, faça-me o favor...
O gato, que ouvia esse discurso, mas fingiu nada escutar, disse com ar grave e sério:
- Não se aflija, meu dono, só precisa me dar um saco e mandar fazer pra mim um par de botas pra ir ao bosque, e verá que não foi assim tão má aquinhoado quanto pensa.
Embora o dono do gato não acreditasse naquilo, tanto o havia visto fazer acrobacias para pegar ratos e camundongos, como quando se pendurava pelos pés, ou se escondia na farinha para bancar o morto, que não desesperou de ser socorrido em sua miséria.
Quando o gato teve o que pedira, calçou corajosamente as botas e, pensurando o saco no pescoço, segurou os cordões com as duas paras da frente e andou até um bosque onde havia muitos coelhos.
Quer dizer, o cara tá morto de fome, mas dá sapatos (sob medida!) pro bichano. Isso, nada mais é do que uma metáfora dos dias atuais, minha gente. Outro dia eu fiquei sabendo que uma madame não pagava o condomínio já há muito tempo, mas não dispensava o tratamento semanal do poodle no pet shop. Esse cara aí, vou falar uma coisa... É uma madame enrrustida! E o gato... Sem comentários, viveu a vida inteiro sem sapatos e agora exige botas! E afinal, o que um gato de botas tem a mais (além das botas) do que um gato convencional?
Botou farelo e verduras no saco e, deitando-se como se estivesse morto, esperou que algum jovem coelho, pouco avisado das astúcias desse mundo, viesse se meter em seu saco para comer o que ele havia posto ali.
Hum... Coelhinho desavisado, é?
Tão logo que se deitou, teve razões de alegria; um jovem coelho distraído entrou no saco e o mestre gato, puxando na mesma hora os cordões, apanhou-o e matou-o sem misericórdia.
Gente... Não parece desfecho de filme erótico trágico? Pobre do coelho, a história pra ele termina aqui. Mas tenho certeza que aprendeu uma lição... Embora não seja muito útil pra ele dali em diante.
Orgulhoso de sua proeza, ele foi ao castelo do rei e pediu pra lhe falar. Levaram-no aos aposentos de sua majestade onde, entrando, ele fez uma grande reverência ao rei e disse:
- Eis aqui, senhor, um coelho selvagem que o senhor Marquês de Carabás (foi esse o nome que ele resolveu dar a seu dono) me encarregou de trazer para presenteá-lo.
- Diga a seu dono - respondeu o rei - que eu lhe agradeço e que ele me deu muito prazer com isso.
Qual é a probabilidade, em condições normais, de um gato entrar num palácio real portando um coelho morto, afim de entregá-lo ao maior representante do Estado e, como se não bastasse, ser bem recebido e ainda apreciado pelo próprio? Bom... Pelo menos tava de botas, né.
Uma outra vez, ele foi se esconder no trigo, sempre segurando o saco aberto e, quando duas perdizes nele entraram, puxou os cordões e apanhou as duas. Foi então apresentá-las ao rei, como fizera com o coelho selvagem. O rei novamente recebeu com prazer as duas perdizes e mandou que lhe dessem de beber. O gato continuou então, durante dois ou três meses, a levar de vez em quando produtos da caça de seu dono.
Ah, só pra lembrar... Nisso o nosso querido caçulinha padecia de fome. Sem gato e sem luvas!A
Um dia, ao saber que o rei deveria sair a passeio pelas margens do rio com sua filha, a mais linda princesa do mundo, ele disse a seu mestre:
- Se quiser seguir meu conselho, sua fortuna está garantida; tudo o que precisa é ir se banhar no rio, no local onde vou lhe mostrar... e deixar o resto comigo.
Ok... Essa é a parte em que o cara resolve acatar os conselhos do bichano. Eu fico a pensar se, na cabeça de uma pessoa assim, não passou nem por um instante, a idéia de trabalhar no moinho do brother, como uma pessoa normal... Acho que ele era do tipo 'muito sacaneado'. Vestir luvas de gato, morrer de fome, seguir conselhos de um felino e agora nadar nu, tudo bem. Unir-se aos primogênitos, jamais! Admito que ele tem dignidade...
O Marquês de Carabás fez o que lhe aconselhava o gato, sem saber de que serviria. Enquanto se banhava, o rei passou e o gato começou a gritar com todas as forças:
- Socorro, socorro, o Marquê de Carabás está se afogando!
Ao ouvir esse grito, o rei botou a cabeça pra fora da portinhola e, reconhecendo o gato que tantas vezes lhe levara caça, ordenou aos guardas que fossem depressa em socorro do senhor Marquês de Carabás. Enquanto tiravam da água o pobre marquês, o gato se aproximou da carruagem e disse ao rei que, enquanto seu dono se banhava, vieram ladrões que lhe levaram as roupas, embora ele tivesse gritado com o ladrão com todas as suas forças. O espertalhão as escondera sob uma grande pedra.
Esse é o famigerado migué. Muito em alta nos dias atuais. Sabe quando você empresta alguma coisa e nunca mais devolve? Inconscientemente, você aprendeu com essa fábula.
O rei ordenou na mesma hora aos oficiais de seu guarda-roupa que fosse buscar um de seus mais belos trajes para o senhor Marquês de Carabás. O rei lhe fez mil agrados e, como os belos trajes que acabavam de lhe dar revelavam sua boa aparência (pois ele era bonito de rosto e bem-feito de corpo), a filha do rei achou-o muito atraente e bastou que o Marquês de Carabás lhe lançasse dois ou três olhares muito respeitosos, e um pouco ternos, para que ela ficasse loucamente apaixonada.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaah, tá bom!
Não sei pra vocês, mas pra mim isso aí não colou... Fala sério, a mulher é a "princesa mais linda do mundo" e vai ficar 'loucamente apaixonada' por um ex-mendigo por causa de 'olhares respeitosos'? Tem dó! Eu acho que no meio do caminho eles pararam num boteco, assim, como quem não quer nada. E na conversa com o sogrão, o mendigo mais lindo do mundo fez aquele clássico joguinho de pernas por debaixo da mesa. Daí não há princesa que resista.
O rei quis que ele subisse em sua carruagem e que seguisse o passeio com eles. O gato, encantado por ver que seu projeto começava a dar certo, tomou a dianteira e, encontrando camponeses que limpavam um pasto, lhes disse:
- Bons homens, se não disserem ao rei que o pasto que estão limpando pertence ao Senhor Marquês de Carabás, serão todos picados como carne para patê.
Se eu fosse um camponês limpando um pasto e ouvisse isso de quem quer que fosse, felino ou não, eu simplesmente viraria pro colega de trabalho mais próximo e diria 'mas o que é patê??'. Que raios, até parece que camponês come patê. Ainda mais se for feito de camponês.
O rei perguntou aos camponeses a quem pertencia o pasto que ceifavam.
- Ao senhor Marquês de Carabás - disseram todos juntos, porque a ameaça do gato lhes dera medo.
Agora eu penso... E se eles falassem 'Num é dele, não!', será que seriam transformados em patê? Porque a equipe do gato é: o gato e o cara. E o cara não é muito participativo, como pudemos ver até o presente momento. Um gato consegue transformar um grupo de camponeses armado com foices em patê? Tenho cá minhas dúvidas, mas que seja.
- O senhor tem aí uma bela herança - disse o rei ao Marques de Carabás.
- Pois é um pasto, senhor, que não deixa de render com abundância todos os anos.
Mestre gato, que continuava andando na frente, encontrou colhedores de trigo e lhes disse:
- Bons homens que ceifam, se não disserem que todo esse trigo pertence ao Senhor Marquês de Carabás, serão todos picados como carne para patê.
O rei, que passou pouco depois, quis saber a quem pertencia todo aquele trigo que via.
- Ao Senhor Marquês de Carabás- responderam os colhedores. E novamente o rei felicitou o marquês.
O gato, que seguia à frente da carruagem, dizia sempre a mesma coisa a todos que encontrava; e o rei estava surpreso com os grandes bens do senhor Marquês de Carabás. Nestre gato chegou então a um belo castelo cujo dono era um ogro, o mais rico que jamais se viu, pois todas as terras pelas quais o reihavia passados pertenciam àquele castelo.
O mais rico ogro que jamais se viu... O Shreak, só pode!
O gato, que teve o cuidado de se informar a respeito do ogro e do que ele sabia fazer, pediu para lhe falar, dizendo que não poderia passar tão perto de seu castelo sem ter a honra de lhe fazer uma reverência. O ogro recebeu com tanta educação quanto é capaz um ogro e disse-lhe que ficasse à vontade.
- Garantiram-me - disse o gato - que o senhor tem o dom de se transformar em qualquer tipo de animal, que o senhor poderia, por exemplo, se transformar em leão, em elefante...
- É verdade - respondeu bruscamente o ogro -, e para lhe mostrar, vai me ver virar um leão.
O gato ficou tão apavorado ao ver um leão à sua frente que pulou na mesma hora para o telhado, não sem dificuldade e sem risco, pois suas botas de nada serviam para andar sobre telhas.
Viu no que dá seguir modinhas? Acho que essa é uma das morais dessa história.
Algum tempo depois o gato, vendo que o ogro abandonara sua forma, desceu e confessou que tivera muito medo.
- Garantiram-me ainda - disse o gato-, mas não consigo acreditar, que o senhor tem também o poder de tomar a forma dos menores animais, por exemplo, de se transformar num camundongo. Confesso que isso me parece totalmente impossível.
- Impossível? retrucou o ogro - Já vai ver.
E na mesma hora se transformou num camundongo que começou a correr pelo chão. Tão logo o gato o viu, atirou-se sobre ele e comeu-o.
De novo, interpretações ambíguas, porém, o mais importante é ressaltar que o ogro em questão não considerou o velho conselho materno, repetido diariamente em boa parte das casas desse mundo: 'Não abra a porta para estranhos.' De acordo com o dicionário, estranhos podem ser desconhecidos, ou pessoas esquisitas. Ou ambos, como nesse caso. Viram, crianças? É mais ou menos isso que acontece quando se abre a porta para estranhos esquisitos.
O rei, que ao passar avistou o belo castelo do ogro, quis entrar. O gato, que ouviu o barulho da carruagem que atravessara a ponte elevadiça, correu para fora e disse ao rei:
- Seja Vossa Majestade muito bem-vinfo ao castelo do Senhor Marquês de Carabás.
- Como, Senhor Marquês? - exclamou o rei - este castelo também é seu? Nada pode ser mais bonito do que este pátio e todas essas construções que o cercam: vejamos o interior, por favor.
O marquês deu a mão à jovem princesa e, seguindo o rei que subia aprimeiro, entraram num grande salão onde encontraram uma magnífica refeição que o ogro mandara prepara para seus amigos que deveriam visitá-lo naquele mesmo dia, mas que não haviam ousado entrar ao saber que o rei lá estava. O rei, encantado com as boas qualidades do Senhor Marquês de Carabás tanto quanto sua filha que estava apaixonada, e vendo os grandes bens que ele possuía, disse, depois de beber cinco ou seis taças:
- Só dependerá do senhor, Senhor Marquês de Carabás, se quiser ser meu genro.
O marquês, fazendo grandes reverências, aceitou a honra que lhe fazia o rei e no mesmo dia desposou a princesa. O gato se tornou grão- senhor e dali em diante só correu atrás de camundongos quando queria se divertir.
Vale ressltar que 'cinco ou seis taças' passaram pela mesa antes do final feliz. Uma pena que Perrault não tenha descrito o conteúdo das ditas taças... Creio que foi intencional, fica à imaginação de cada um."
Moral da história:
Caçulas se dão bem quando os mais velhos não estão por perto. Gatos funcionam melhor calçados. E não há nada que cinco ou seis taças não resolvam.
Prólogo:
Gente... Estava eu cá pensando com meus botões... Se o irmão caçula, que herdou o gato fez esse estrago todo, imaginem o que o irmão do meio não foi capaz com o burrinho?
"O Burro de Botas", uma história que nunca me foi contada, mas eu não duvido que exista. Se alguém tiver informações, ficarei grata em receber.
E outra, ainda não descobri qualé a das botas... O que um gato falante calçado tem de superior a um gato falante descalso? Deve ser pura discriminação. Dá cadeia, hein...
posted by: Kika Dalossi, que não escreve fábulas, mas copia magistralmente bem.
Agradecimentos: Perrault
11 de out. de 2007
Conto de Fatos, parte 2
Despachado o primogênito, seu João entreteu-se com as gêmeas, que insistiam na idéia de que existiam seres mitológicos na casa. Segundo as meninas, somente em lugares habitados por duendes e gnomos é que coisas somem e aparecem misteriosamente. Pouco adiantou tentar dissuardir as pequenas dizendo que gnomos não existem. Elas tinham a idéia fixa e o único modo que seu João achou de resolver a situação foi entrar na brincadeira:
- Muito bem, filhas... Os gnomos estão mesmo por toda a casa. É impossível viver assim! Então, vocês estão escaladas para nos livrar dessas terríveis criaturas e recuperar a dignidade desse lar!
- Papai, o que é dignidade?
- É... Bem... Outro nome para 'chaves do carro'.
Assim, as gêmeas ficaram satisfeitas e seu João também. Com as meninas ocupadas, ele poderia se dedicar em efetuar sua tarefa doméstica preferida: cuidar do jardim.
Enquanto isso, dona Rosário estendia as roupas no varal dos fundos. Inevitavelmente (como sempre) ela não pôde deixar de ouvir o que dizia a vizinha da direita. A mulher narrava ao marido uma história pra lá de cabulosa, a respeito da vizinha da rua de cima. Eis que no auge do drama, o telefone tocou e dona Rosário teve que abandonar a saga pelo final. Correu para a cozinha a fim de atender o telefone o mais rápido possível. Mas era a primogênita Clara, que após discursar longamente a respeito da última discussão da kit net, comunicou que almoçaria na casa dos pais.
Após a conversa, dona Rosário fez os cálculos: Além da família residente na casa, o almoço teria que dar conta dos primos, de Clara e dos pais de seu João, que chegariam do interior a qualquer momento. Ou seja, ela teria que cozinhar algo mais. Para ela, não tinha problema algum, adorava cozinhar! E além do mais, enquanto se distraia entre temperos e quitutes, teria tempo suficiente para bolar um final conveniente (ou não) para o boato que acabara de ouvir.
Enquanto a casa já ia engrenando as atividades do dia, Joãozinho ainda estava no quarto, pensando a respeito do presente que iria ganhar naquele dia especial. Uma semana antes, ele havia comentado seu desejo contido por um Acqua Play. O pai, apesar de não demostrar a empolgação esperada, não negou o pedido. Esperançoso, Joãozinho aguardava o instante tão esperado.
Eis que a campainha toca. Ao olhar pela janela, Joãozinho vê que Raul e Ricardo haviam chegado. Sem esperar, correu para a porta, a fim de receber os primos. Nem lembrou que estava de pijamas e pantufas.
Os garotos, ao verem Joãozinho em tal estado, não puderam conter os comentários a respeito da estampa da vestimenta de Joãozinho:
- Cara, esse teu pijama é muito intergalático!
- Tá parecendo um et.
Para qualquer pessoa normal, isso seria contrangedor e ofensivo, mas como eram garotos de 10 anos, essas considerações tiveram outra conotação. E levando em conta o contexto, o pijama de Joãozinho deu margem à mais nova criação dos meninos:
- Vamos brincar de guerra nas estrelas!!
E assim, os três correram para o quarto e passaram um bom tempo se preparando para as batalhas que aconteceriam no dia.
Na cozinha, dona Rosário e Clara (que chegara a pouco) se ocupavam com o cardápio.Clara era adepta à pedirem uma pizza, ou algo igualmente prático e rápido, uma vez que estava ali unicamente para comer. Após o almoço, ela e as amigas iriam para a praia mais próxima, tomar 'aquele' bronzeado. A mãe, contrariada, insistia em servir Strogonoff e arroz branco, pois era fácil e saboroso. Em outras palavras, ela não teria muito trabalho e encheria o bucho de todos.
Falando em bucho de todos, os parentes do interior chegaram no instante em que dona Rosário descartava a idéia do fast-food.
Seu João, que lutava contra o cortador de grama, se encarregou de receber os pais. Eram raros os momentos em que ele revia os progenitores, e por isso, tinha tomado o cuidado de arranjar tudo para que pudesse fazer com o pai o que ambos mais gostavam: cortar a grama. Mal chegando, seu José, pai de seu João, já entrou no clima familiar e pôs-se a ajudar o filho. Dona Maria, mãe de seu João, ficou com a árdua tarefa de descarregar o Fusca e fazer o social com o restante da família.
Tirando o caos culinário na cozinha, problemas mecânicos com o cortador de grama e a suposta guerra cósmica no andar de cima, a manhã transcorreu sem maiores novidades. É claro que, no quarto dos meninos houveram alguns inprevistos. Na ânsia de atingir o et, no caso o Joãozinho, Raul não mediu esforços e usou o colchão para derrubar o inimigo. O pequeno garoto quase entrou em estado se inconsciência, mas o chamado para o almoço o despertou e ficou tudo bem.
Imaginem agora o que é um grande almoço em família com uma família das grandes. Dona Rosário queria ter um momento fraterno, servir cada criança e apresentar uma palavra de amor antes da refeição. Pena que os homens estivessem famintos e ansiosos para voltar ao trabalho e as crianças empolgadas com o novo truque de soltar arroz pelo nariz. Clara almoçou ortodoxamente, porém com o celular ao lado, respondendo todas as eventuais mensagem que chegavam. 'Organizar viagem em grupo é complicado...', justificou-se. Papo vai, papo vem, dona Rosário conseguiu convencer Clara a levar as gêmeas para o litoral:
- Vai ser bom para as meninas, minha filha. Elas precisam de um exemplo de maturidade feminina, moderna e responsável.
Vaidosa como ninguém, Clara acatou a idéia e, logo após o almoço, aguardou com as gêmeas a carona que as levariam para uma viagem maginífica.
- O que é magnífica, Clara?
- Bem... É... Outro nome para 'praia'.
Joãozinho estava tão ansioso para receber o presente que nem conseguiu comer direito. Ao fim, quando a mãe já retirava os pratos, ele ficou a olhar para o pai, como quem diz 'é agora?'. Porém, seu João não percebeu as indiretas oculares do filho e voltou a cortar a grama como se nada tivesse acontecido.
Preocupado , Joãozinho conversou com os primos sobre seu problema:
- Como é que ele pode ter esquecido? Como?
Sua desilusão era tanta que os primos temeram não conseguirem animar Joãozinho novamente. Felizmente, Ricardo teve uma idéia:
- Já sei! Vamos brincar de guerra nas estrelas!
Nada original... Mas funcionou.
Dona Rosário havia percebido a tristeza de Joãozinho, e decidiu conversar com seu João a respeito do presente não dado:
- João, querido. Não acha que Joãozinho esperava receber alguma coisa nesse dia das crianças?
- É claro que sim, querida. Mas estive pensando... Se eu comprasse algo pra ele, teria que comprar também para as gêmeas. E assim meu salário não aguenta.
Pior que era verdade... Três presentes em um único mês acabaria com o orçamento da família. Porém, como toda boa mãe, dona Rosário encontrou uma saída:
- Por que você não compra um presente para os três?
Dito e feito. Seu João e seu José partiram imediatamente para praticar a segunda atividade preferida: economizar.
A guerra cósmica estava no ápice: os dois astronautas lutavam com travesseiros e colchão contra o temível et, que resistia bravamente usando apenas um estrado de cama.
Ao findar algumas horas, astronautas e et estavam exaustos, e decidiram economizar um pouco de energia: foram assistir televisão.
Ora, sabe-se que no Dia das Crianças, todos os canais exibem progamas especiais, dedicados aos piquituchos. Sentados frente à tv, os garotos assistiam a uma loira esbelta que cantava cantigas infantis. No começo, eles estranharam:
- Que esquisita essa mulher. Por que ela canta gemendo?
- Por que ela se abaixa desse jeito?
- Por que ela está semi-nua?
Mas no cair da tarde, muita coisa mudou, inclusive suas concepções infantis:
- Uhuuuu! Meu pintinho amarelinho quer comer na sua mão!
- Será que ela consegue dormir sentada? É só jogar a cabeça pra frente que já tem um travesseiro natural.
Foi mais ou menos aí que seu João chegou com o presente três-em-um.
Joãozinho ficou maravilhado! Era só alegria quando abriu o pacote. Mas ao ver o conteúdo, ficou novamente decepcionado:
- Que tipo de ser humano presenteia o próprio filho com bebelô de gesso?
Seu João, indiferente ao comentário, retornou para o jardim, deixando Joãozinho sozinho com o bibelô e os primos.
A maioria das crianças ficaria traumatizada, e talvez Joãozinho também, se naquele momento a apresentadora da tv não estivesse fazendo um jogo que envolvia água, garotos inocentes e paquitas peitudas de blusa branca. O melhor de tudo, é que ele poderia participar da brincadeira. Bastava telefonar para o número na tela. E assim, os três garotos garantiram a diversão das próximas horas.
Na praia, Clara estava em pleno desespero. As gêmeas haviam sumido meio à multidão. Ela já acionara os salva-vidas, policiais, sorveteiros e sequestradores, e nada de encontrar as garotas. Já pensava no seu destino na prisão, por perder as irmãzinhas inocentes. A vantagem foi que, de tanto caminhar de um lado para o outro da praia, ela conseguira o tal bronzeado que tanto desejava. Depois de duas horas de busca, Clara tentou pela primeira vez telefonar pra casa e comunicar à família o desaparecimento das caçulas oficiais. Mas o telefone só dava ocupado, o que a deixou ainda mais nervosa. Sem saber o que fazer, continuou a procurar de um canto a outro da praia lotada. Só no fim da tarde, quando o sol já tinha se posto, foi que ela desistiu. Resolveu que o melhor a fazer era voltar pra casa e enfrentar o destino. Como toda jovem, Clara tentou bolar uma história para justificar o desaparecimento das gêmeas. Já estava com esquema montado quando, algumas horas depois, desceu do táxi, da frente da casa dos pais.
Logo que entrou na sala, já começou a narrar sua história progamada. Os pais ouviram sem nada dizer, até que as gêmeas adentraram no recinto:
- Mas de onde vocês vieram?! - exclamou Clara, surpresa.
- Da cozinha. - Responderam as meninas, juntas.
- Elas chegaram há algumas horas - explicou dona Rosário - parece que cansaram de procurar por você e resolveram voltar pra casa.
Atônita, Clara não podia acreditar que as garotinhas de um metro e vinte tinham conseguido voltar sozinhas para casa.
Enquanto isso, os meninos assistiam o encerramento do progama que havia dado a eles um novo objetivo de vida. Agora, Joãozinho não se preocupava mais com problemas supérfluos como presentes e guerras de travesseiros. Tudo, absolutamente tudo, tinha um sentido diferente. E tudo tendia a peitos se balançando no ritmo de músicas infantis repletas de mensagens subliminares. Ele havia, involuntariamente, se transformado.
No fim do dia, nem todos perceberam, mas cada membro da família havia aprendido uma nova lição."
Morais da História:
"Filhos não gostam de bibelôs."
"Diante de uma grama alta, problemas familiares devem ser ignorados."
"Crianças possuem senso de localização. Adolescentes recém-emancipadas, não."
"A televisão ajuda na (de)formação de mentes jovens."
Posted by: Kika Dalossi, que não é criança, mas comemorou o Dia das Crianças.
Colaboração: Sil Boriani, Bob, Dé Anacleto, Fer Mc'Kagan
obs:
Quanto à gafe cometida no post anterior, relativa ao número exatos de filhos do casal em questão: Gente, se eu soubesse contar, estaria fazendo Engenharia no ITA. Como só sei escrever e mais nada, estou no Mesa de Boteco. Acho que eram 5, ou 6 crianças, sei lá. O fato é que eram MUITAS. E isso basta.
7 de out. de 2007
Conto de Fatos
"Essa é a história do menino Joãozinho, um garoto comum que viu sua vida ser transformada em um único dia.
A mãe de Joãozinho era uma legítima dona de casa: lavava, passava, fazia compras, limpava a casa, cuidava dos filhos, e, não se sabe como, ainda assistia novela e dispunha de tempo para investigar a vizinhança. Por apresentar habilidades comunicativas muito peculiares, era mais conhecida como dona Comentário. Uma alusão maldosa ao nome da senhora Rosário.
Com tantas tarefas a serem cumpridas, dona Rosário nem sempre se atentava a datas comemorativas. Não era pra menos, lembrar de todos os aniversários da família já era um grande sacrifício: Eram em sete no total.
Parir cinco filhos era motivo de orgulho para ela. E motivo de críticas para os vizinhos. Com tamanha prole, não era raro que por vezes faltasse um copo de leite, um punhado de açúcar ou sal. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Essencialmente comunicativa e funcional, a simpática senhora não esitava em recorrer às vizinhas para resolver seus imprevistos domésticos. Na maioria das vezes, era o menino Joãozinho que recebia a missão de ir até a casa ao lado emprestar algum gênero alimentício.
Ele sentia-se profundamente angustiado ao tocar a campainha, e ainda mais angustiado ao esperar a resposta. Apesar de os vizinhos nunca negarem nenhum pedido, Joãozinho sabia o que pensavam a respeito da família Sousa Lima. "Uns aproveitadores, isso sim", ele ouvira uma vizinha dizer certa vez. Enfim, mesmo inconscientemente, dona Rosário colocava Joãozinho em situações contrangedoras.
O pai de Joãozinho era um homem calado e recluso. Saí cedo para trabalhar na firma e só voltava depois que Joãozinho estava dormindo. Por isso, o menino não tinha um relacionamento propriamente dito com o seu progenitor. O que mais os aproximava era o nome em comum: João. Ainda assim, o pai fez questão de acrescentar o sufixo 'inho', para manter claras as diferenças entre um e outro. A lembrança mais paternal que seu João teve com Joãozinho foi no dia do sexto aniversário do menino, quando a família se reuniu para ir ao cinema. É claro que o filme escolhido foi um clássico infantil, que embalou a imaginação do rebento, mas fez seu João adormecer profundamente. O problema é que o chefe da família sofria do triste mal da apnéia, e seu ronco não só provocou reações aversivas do restante do público, como também levou a família a deixar o cinema antes do desfecho do drama. Esse fato traumatizou o pequeno Joãozinho, que por muitos anos teve que coviver com a dúvida de como termina O Rei Leão. Joãozinho tinha três irmãos e duas irmãs. A primogênita, Clara, morava sozinha desde que arranjara o primeiro emprego, há alguns meses. Desde que tinha doze anos, Clara reclamava da falta de privacidade na pequena casa. Agora ela dividia uma kit net com mais duas amigas, mas visitava os pais sempre que possível, ou quando brigava com as companheiras de quarto. O engraçado é que ela saiu de casa para poder ter mais liberdade, independência, ou pelo menos alguns momentos de paz na frente do espelho do banheiro. Mas a kit net alugada era tão, ou mais, apertada do que a casa Souza Lima. Mesmo assim, Clara não parecia mostrar arrependimento algum, e se vangloriava por já ser 'adulta', no auge dos seus 21 anos.
O segundo filho do casal, se chamava Pedro. Joãozinho sempre se perguntou por que não foi ele a levar o nome do pai. Tentou descobrir por todos os meios lícitos, mas só encontrou a resposta com o seu José da padaria. Segundo o padeiro, seu João, pai de Joãozinho apostara com um sujeito chamado Pedro que o Corinthians não cairia para a segunda divisão. Pra encurtar a história, João perdeu a aposta e o filho teve que carregar o nome do time adversário. Teoricamente, a criança teria que se chamar Palmeiras, mas houve resistência por parte do escrivão do cartório de registro. Assim, definiu-se que o menino se chamaria Pedro. O garoto estava com 16 anos e nunca soube da história. Sete anos o separava do terceiro filho, o Joãozinho. Logo que nasceu, recebeu o título de 'caçula oficial'. Seu João pretendia inaugurar a fase estéril da vida, pois ao colocar três crianças no mundo, ele cumprira a sua tarefa de aumentar a população mundial. A vasectomia foi agendada. Porém, empolgado com os artifícios contraceptivos da medicina moderna, seu João esqueceu-se do aviso do médico de que ainda haveria risco de gravidez por algumas semanas. E assim vieram ao mundo Bianca e Beatriz, gêmeas idênticas. Como todo filho não progamado, as gêmeas não enfrentaram a euforia familiar após o nascimento. É claro que nunca faltou nada para elas, muito pelo contrário, fizeram muito bom uso de todos os vestígios de enxovais que já haviam sido usados naquela casa. Receberam o título de caçulas oficiais, deixando Joãozinho com a problemática situação de 'filho do meio'. Mas como a diferença entre Joãozinho e as caçulinhas era de apenas dois anos, não houveram grandes traumas.
Além da família tradicional, Joãozinho contava com a presença de seus primos Raul e Ricardo, que tinham quase a mesma idade e o visitavam com frequência. Os três eram garotos comuns, mas quando se juntavam, elevavam o grau de criatividade destrutiva.
Para felicidade de Joãozinho e desespero contido de dona Rosário, Raul e Ricardo passariam o feriado do dia 12 de Outubro com os tios. Tal notícia despertou em Joãozinho a certeza de que o Dia das Crianças seria realmente inesquecível..."
continua no próximo capítulo
posted by: Kika Dalossi, que começa, desenvolve, mas nem sempre termina.
nota da autora: Aceito sugestões, comentários e relatos verídicos que envolvam crianças e acontecimentos curiosos. Podem conter cenas de nudez, drogas e violência, mas só dentro do limite permitido pela equipe de Moral e Censura do Mesa de Boteco. No caso, eu mesma. ^^
nota da autora 2: Visitem o Blog do Dr. Ricardão (link logo abaixo). Além de poder se solidariezar com os problemas alheios, ou pelo menos descobrir que no mundo existem pessoas tão, ou mais, estranhas que você, o Blod do Dr. Ricardão dispõe de resposta para todas as suas dúvidas sexuais. Enfim, sabe aquilo que você sempre quis perguntar mas sempre teve vergonha? Então.