15 de jan. de 2008

O Gato de Botas

Eu sempre quis escrever uma fábula. Daquelas com animais falando e final moralizante. Por alguma razão, eu nunca consegui...
Mas hoje, caros leitores, eu encontrei uma solução!
Enquanto lia o meu atual livro de cabeceira (mesmo não tendo uma cabeceira), me deparei com um clássico infantil: "O Gato de Botas". No mesmo instante, um incrível sentimento de nostalgia me invadiu e eu não pude deixar de degustar cada palavra e pequeno trecho dessa historinha.
Apesar dessa fábula ter povoado bons anos da minha infância, essa leitura foi completamente nova. Isso porque, creio eu, muita coisa se passou desde a última vez em que eu li e refleti sobre O Gato de Botas.
Sem mais delongas, transcrevo na íntegra a fábula De Charles Perrault, sem dispensar as minhas considerações pessoais:

"Um moleiro deixou a seus três filhos todos os bens que possuía: seu moinho, seu burro e seu gato. A partilha foi logo feita, nem o tabelião nem o procurados foram chamados, pois logo teriam dado cabo de todo o pobre patrimônio...
Ooooooooooopa!!! Notem a sutileza de Perrault. Quase ninguém percebe, mas eu vi! Eu vi!!! O desprezo por representantes jurídicos tornou-se mais do que claro, já no primeiro parágrafo. Só faltou dizer que advogado sempre tira vantagens das pequenas causas. Mas tudo bem, sem ressentimentos. Continuando:
O mais velho ficou com o moinho, o segundo com o burro e para o menor sobrou apenas o gato.
Aí ó! Caçulas sempre se ferram nas partilhas. Permitam uma breve reivindicação: Caçulas sempre são bode expiratório para as traquinices dos mais velhos! E além de ter que aturar todos os tipos de humilhações, não dispõe de um irmão menor para aliviar as tensões. Sem falar na política de reuso... Caçulas sempre têm 'artigos de segunda mão', pra não falar outra coisa...
O último não conseguia se conformar com tão pobre lote:
- Meus irmãos - dizia ele - poderão juntos ganhar a vida honestamente, quanto a mim quando tiver comido meu gato e feito com seu pêlo um agasalho para as mãos, sem dúvida morrerei de fome.
Taí um cara de visão limitada... A parte de comer o gato é discutível, dá margens a múltiplas interpretações, mas eu não vou entrar nessa questão. O que mais me impressiona é que ele diz que depois de fazer do gato uma luva, vai morrer de fome! Sentiram a incoerência?? Por que raios um quase- morto- de- fome precisa de luvas? Ora, faça-me o favor...
O gato, que ouvia esse discurso, mas fingiu nada escutar, disse com ar grave e sério:
- Não se aflija, meu dono, só precisa me dar um saco e mandar fazer pra mim um par de botas pra ir ao bosque, e verá que não foi assim tão má aquinhoado quanto pensa.
Embora o dono do gato não acreditasse naquilo, tanto o havia visto fazer acrobacias para pegar ratos e camundongos, como quando se pendurava pelos pés, ou se escondia na farinha para bancar o morto, que não desesperou de ser socorrido em sua miséria.
Quando o gato teve o que pedira, calçou corajosamente as botas e, pensurando o saco no pescoço, segurou os cordões com as duas paras da frente e andou até um bosque onde havia muitos coelhos.
Quer dizer, o cara tá morto de fome, mas dá sapatos (sob medida!) pro bichano. Isso, nada mais é do que uma metáfora dos dias atuais, minha gente. Outro dia eu fiquei sabendo que uma madame não pagava o condomínio já há muito tempo, mas não dispensava o tratamento semanal do poodle no pet shop. Esse cara aí, vou falar uma coisa... É uma madame enrrustida! E o gato... Sem comentários, viveu a vida inteiro sem sapatos e agora exige botas! E afinal, o que um gato de botas tem a mais (além das botas) do que um gato convencional?
Botou farelo e verduras no saco e, deitando-se como se estivesse morto, esperou que algum jovem coelho, pouco avisado das astúcias desse mundo, viesse se meter em seu saco para comer o que ele havia posto ali.
Hum... Coelhinho desavisado, é?
Tão logo que se deitou, teve razões de alegria; um jovem coelho distraído entrou no saco e o mestre gato, puxando na mesma hora os cordões, apanhou-o e matou-o sem misericórdia.
Gente... Não parece desfecho de filme erótico trágico? Pobre do coelho, a história pra ele termina aqui. Mas tenho certeza que aprendeu uma lição... Embora não seja muito útil pra ele dali em diante.
Orgulhoso de sua proeza, ele foi ao castelo do rei e pediu pra lhe falar. Levaram-no aos aposentos de sua majestade onde, entrando, ele fez uma grande reverência ao rei e disse:
- Eis aqui, senhor, um coelho selvagem que o senhor Marquês de Carabás (foi esse o nome que ele resolveu dar a seu dono) me encarregou de trazer para presenteá-lo.
- Diga a seu dono - respondeu o rei - que eu lhe agradeço e que ele me deu muito prazer com isso.
Qual é a probabilidade, em condições normais, de um gato entrar num palácio real portando um coelho morto, afim de entregá-lo ao maior representante do Estado e, como se não bastasse, ser bem recebido e ainda apreciado pelo próprio? Bom... Pelo menos tava de botas, né.
Uma outra vez, ele foi se esconder no trigo, sempre segurando o saco aberto e, quando duas perdizes nele entraram, puxou os cordões e apanhou as duas. Foi então apresentá-las ao rei, como fizera com o coelho selvagem. O rei novamente recebeu com prazer as duas perdizes e mandou que lhe dessem de beber. O gato continuou então, durante dois ou três meses, a levar de vez em quando produtos da caça de seu dono.
Ah, só pra lembrar... Nisso o nosso querido caçulinha padecia de fome. Sem gato e sem luvas!A
Um dia, ao saber que o rei deveria sair a passeio pelas margens do rio com sua filha, a mais linda princesa do mundo, ele disse a seu mestre:
- Se quiser seguir meu conselho, sua fortuna está garantida; tudo o que precisa é ir se banhar no rio, no local onde vou lhe mostrar... e deixar o resto comigo.
Ok... Essa é a parte em que o cara resolve acatar os conselhos do bichano. Eu fico a pensar se, na cabeça de uma pessoa assim, não passou nem por um instante, a idéia de trabalhar no moinho do brother, como uma pessoa normal... Acho que ele era do tipo 'muito sacaneado'. Vestir luvas de gato, morrer de fome, seguir conselhos de um felino e agora nadar nu, tudo bem. Unir-se aos primogênitos, jamais! Admito que ele tem dignidade...
O Marquês de Carabás fez o que lhe aconselhava o gato, sem saber de que serviria. Enquanto se banhava, o rei passou e o gato começou a gritar com todas as forças:
- Socorro, socorro, o Marquê de Carabás está se afogando!
Ao ouvir esse grito, o rei botou a cabeça pra fora da portinhola e, reconhecendo o gato que tantas vezes lhe levara caça, ordenou aos guardas que fossem depressa em socorro do senhor Marquês de Carabás. Enquanto tiravam da água o pobre marquês, o gato se aproximou da carruagem e disse ao rei que, enquanto seu dono se banhava, vieram ladrões que lhe levaram as roupas, embora ele tivesse gritado com o ladrão com todas as suas forças. O espertalhão as escondera sob uma grande pedra.
Esse é o famigerado migué. Muito em alta nos dias atuais. Sabe quando você empresta alguma coisa e nunca mais devolve? Inconscientemente, você aprendeu com essa fábula.
O rei ordenou na mesma hora aos oficiais de seu guarda-roupa que fosse buscar um de seus mais belos trajes para o senhor Marquês de Carabás. O rei lhe fez mil agrados e, como os belos trajes que acabavam de lhe dar revelavam sua boa aparência (pois ele era bonito de rosto e bem-feito de corpo), a filha do rei achou-o muito atraente e bastou que o Marquês de Carabás lhe lançasse dois ou três olhares muito respeitosos, e um pouco ternos, para que ela ficasse loucamente apaixonada.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaah, tá bom!
Não sei pra vocês, mas pra mim isso aí não colou... Fala sério, a mulher é a "princesa mais linda do mundo" e vai ficar 'loucamente apaixonada' por um ex-mendigo por causa de 'olhares respeitosos'? Tem dó! Eu acho que no meio do caminho eles pararam num boteco, assim, como quem não quer nada. E na conversa com o sogrão, o mendigo mais lindo do mundo fez aquele clássico joguinho de pernas por debaixo da mesa. Daí não há princesa que resista.
O rei quis que ele subisse em sua carruagem e que seguisse o passeio com eles. O gato, encantado por ver que seu projeto começava a dar certo, tomou a dianteira e, encontrando camponeses que limpavam um pasto, lhes disse:
- Bons homens, se não disserem ao rei que o pasto que estão limpando pertence ao Senhor Marquês de Carabás, serão todos picados como carne para patê.
Se eu fosse um camponês limpando um pasto e ouvisse isso de quem quer que fosse, felino ou não, eu simplesmente viraria pro colega de trabalho mais próximo e diria 'mas o que é patê??'. Que raios, até parece que camponês come patê. Ainda mais se for feito de camponês.
O rei perguntou aos camponeses a quem pertencia o pasto que ceifavam.
- Ao senhor Marquês de Carabás - disseram todos juntos, porque a ameaça do gato lhes dera medo.
Agora eu penso... E se eles falassem 'Num é dele, não!', será que seriam transformados em patê? Porque a equipe do gato é: o gato e o cara. E o cara não é muito participativo, como pudemos ver até o presente momento. Um gato consegue transformar um grupo de camponeses armado com foices em patê? Tenho cá minhas dúvidas, mas que seja.
- O senhor tem aí uma bela herança - disse o rei ao Marques de Carabás.
- Pois é um pasto, senhor, que não deixa de render com abundância todos os anos.
Mestre gato, que continuava andando na frente, encontrou colhedores de trigo e lhes disse:
- Bons homens que ceifam, se não disserem que todo esse trigo pertence ao Senhor Marquês de Carabás, serão todos picados como carne para patê.
O rei, que passou pouco depois, quis saber a quem pertencia todo aquele trigo que via.
- Ao Senhor Marquês de Carabás- responderam os colhedores. E novamente o rei felicitou o marquês.
O gato, que seguia à frente da carruagem, dizia sempre a mesma coisa a todos que encontrava; e o rei estava surpreso com os grandes bens do senhor Marquês de Carabás. Nestre gato chegou então a um belo castelo cujo dono era um ogro, o mais rico que jamais se viu, pois todas as terras pelas quais o reihavia passados pertenciam àquele castelo.
O mais rico ogro que jamais se viu... O Shreak, só pode!
O gato, que teve o cuidado de se informar a respeito do ogro e do que ele sabia fazer, pediu para lhe falar, dizendo que não poderia passar tão perto de seu castelo sem ter a honra de lhe fazer uma reverência. O ogro recebeu com tanta educação quanto é capaz um ogro e disse-lhe que ficasse à vontade.
- Garantiram-me - disse o gato - que o senhor tem o dom de se transformar em qualquer tipo de animal, que o senhor poderia, por exemplo, se transformar em leão, em elefante...
- É verdade - respondeu bruscamente o ogro -, e para lhe mostrar, vai me ver virar um leão.
O gato ficou tão apavorado ao ver um leão à sua frente que pulou na mesma hora para o telhado, não sem dificuldade e sem risco, pois suas botas de nada serviam para andar sobre telhas.
Viu no que dá seguir modinhas? Acho que essa é uma das morais dessa história.
Algum tempo depois o gato, vendo que o ogro abandonara sua forma, desceu e confessou que tivera muito medo.
- Garantiram-me ainda - disse o gato-, mas não consigo acreditar, que o senhor tem também o poder de tomar a forma dos menores animais, por exemplo, de se transformar num camundongo. Confesso que isso me parece totalmente impossível.
- Impossível? retrucou o ogro - Já vai ver.
E na mesma hora se transformou num camundongo que começou a correr pelo chão. Tão logo o gato o viu, atirou-se sobre ele e comeu-o.
De novo, interpretações ambíguas, porém, o mais importante é ressaltar que o ogro em questão não considerou o velho conselho materno, repetido diariamente em boa parte das casas desse mundo: 'Não abra a porta para estranhos.' De acordo com o dicionário, estranhos podem ser desconhecidos, ou pessoas esquisitas. Ou ambos, como nesse caso. Viram, crianças? É mais ou menos isso que acontece quando se abre a porta para estranhos esquisitos.
O rei, que ao passar avistou o belo castelo do ogro, quis entrar. O gato, que ouviu o barulho da carruagem que atravessara a ponte elevadiça, correu para fora e disse ao rei:
- Seja Vossa Majestade muito bem-vinfo ao castelo do Senhor Marquês de Carabás.
- Como, Senhor Marquês? - exclamou o rei - este castelo também é seu? Nada pode ser mais bonito do que este pátio e todas essas construções que o cercam: vejamos o interior, por favor.
O marquês deu a mão à jovem princesa e, seguindo o rei que subia aprimeiro, entraram num grande salão onde encontraram uma magnífica refeição que o ogro mandara prepara para seus amigos que deveriam visitá-lo naquele mesmo dia, mas que não haviam ousado entrar ao saber que o rei lá estava. O rei, encantado com as boas qualidades do Senhor Marquês de Carabás tanto quanto sua filha que estava apaixonada, e vendo os grandes bens que ele possuía, disse, depois de beber cinco ou seis taças:
- Só dependerá do senhor, Senhor Marquês de Carabás, se quiser ser meu genro.
O marquês, fazendo grandes reverências, aceitou a honra que lhe fazia o rei e no mesmo dia desposou a princesa. O gato se tornou grão- senhor e dali em diante só correu atrás de camundongos quando queria se divertir.
Vale ressltar que 'cinco ou seis taças' passaram pela mesa antes do final feliz. Uma pena que Perrault não tenha descrito o conteúdo das ditas taças... Creio que foi intencional, fica à imaginação de cada um."

Moral da história:
Caçulas se dão bem quando os mais velhos não estão por perto. Gatos funcionam melhor calçados. E não há nada que cinco ou seis taças não resolvam.

Prólogo:
Gente... Estava eu cá pensando com meus botões... Se o irmão caçula, que herdou o gato fez esse estrago todo, imaginem o que o irmão do meio não foi capaz com o burrinho?
"O Burro de Botas", uma história que nunca me foi contada, mas eu não duvido que exista. Se alguém tiver informações, ficarei grata em receber.
E outra, ainda não descobri qualé a das botas... O que um gato falante calçado tem de superior a um gato falante descalso? Deve ser pura discriminação. Dá cadeia, hein...

posted by: Kika Dalossi, que não escreve fábulas, mas copia magistralmente bem.
Agradecimentos: Perrault

5 comentários:

Anônimo disse...

Hahahahahaha, demais!
Fases nostálgicas sempre rendem bons posts!
Adorei os comentários!
Só após muitos anos distantes da infância é que perceberíamos a ambiguidade dessas fábulas...hum, muito suspeitas mesmo ^^
Boa noite, Kikaaaa!
Beijões, e parabéns pela criatividade ;)

Unknown disse...

O melhor, certamente. Juro que quando li o começo deu uma vontade de ler o gato de botas... mas depois de SEUS comentários bizarros, no mínimo, tudo passou a ser levemente idiota. Hoje fiz algo épico (arrumei meus armários e buracos negros). No meio tempo encontrei um livro de criança que contava a historia do gato de botas...

Eu também nunca entendi muito bem a moral das botas... mãs... minhas gatas são fodas mesmo sem estarem calçadas - aliás, como muito bem dito, as botas só foderam com a maestria do gato em pular e andar pelos telhados...

E, a cara, na época eles não tinham filmes pornos gratuitos na internet - tanto pq nem internet tinham. Eles tinham q fazer coisas ambiguas e...bem, eróticas (se quiser pode tirar a virgula ali) pros adultos se divertirem também ^^
afinal, crianças devem ser mantidas em gaiolas. Se não acabam abrindo a porta pra esrtanhos esquisitos bizarros e ogros.
ui.

lucaxxx disse...

Moça eu não li O gato de botas, não me interesso muito por essas leituras. O ultimo que eu li foi Alice no pais das maravlihas mas foi por motivos de curiosidade. Ainda lerei esse conto. Bjãooo

Anônimo disse...

mais uma prova d q os juristas são fundamentais

imagine oq fizeram os irmãos qndo souberam

da boa vida do irmão mais novo???

ah acho q o testamento era nulo....

vamos repartir certinho agora....

sem falar se eles pegam um advogado q

estudou com o machado...

=)

ah e sem duvida a "princesinha biscate volúvel" soh se apaixonou

pq achou q ele era rico... e depois deve ter feito um divórcio e ficado com tudo

ah e segundo fontes seguras o irmão com o moinho foi atacado por um tal

"de la mancha" e perdeu td

o q ficou com o burrinho... a o burro tbm pediu botas

e como necessitava de quatro não ganhou e continuou

sem demonstrar seus dotes

....

hum...

acho q vou começar a usar botas ....

Unknown disse...

hasuhdauhduha
o comentário do cassio foi o melhor.